Antes de fechar a compra ou aprovar a reforma de uma casa na Flórida, o investidor tem um motivo objetivo para examinar o projeto com o arquiteto. A lei estadual obriga as tarifas de seguro residencial a prever descontos, créditos ou redução de franquia para imóveis com técnicas construtivas que comprovadamente reduzem perdas com vento, e itens como a cobertura e as janelas são definidos no desenho da casa.
A arquiteta e designer de interiores Andria Tagliari, brasileira, radicada nos Estados Unidos, com mais de duas décadas de experiência e mais de 80 mil pés quadrados (cerca de 7.400 m²) sob gestão em projetos residenciais e comerciais na Flórida, defende que o tema entre já na primeira conversa de projeto. Três perguntas ajudam a organizar essa conversa.
Cobertura e aberturas foram pensadas para o vento?
É a pergunta de partida, porque os itens que a seção 627.0629 dos estatutos da Flórida associa ao desconto dependem de decisões de projeto: resistência do telhado e da cobertura, ligação entre telhado e paredes, proteção das aberturas e resistência de janelas, portas e claraboias. O Hutchins Center, da Brookings Institution, mediu o peso desses itens em estudo de julho de 2026 com mais de 18 milhões de registros de apólices da Citizens, a seguradora estatal, entre 2002 e 2023: na classe mais alta de proteção de aberturas, que inclui persianas contra furacão e janelas resistentes a impacto, o desconto potencial chegou a 44% do prêmio total. Segundo o Departamento de Serviços Financeiros da Flórida, esse tipo de desconto incide sobre a parcela do prêmio referente à cobertura de furacão.
“Resiliência é decisão de projeto e precisa entrar na primeira conversa, junto com o programa da casa. É nesse momento que se definem a forma da cobertura, o tamanho dos vãos e o tipo de esquadria. Quando fica para o fim da obra, vira adaptação sobre escolhas que já foram feitas”, afirma Andria.
A integração com a área externa foi preservada?
A segunda pergunta trata da integração entre interior e exterior, traço do jeito brasileiro de morar e do estilo de vida na Flórida, que depende de vãos amplos voltados para a varanda e o jardim. Para a arquiteta, proteção e integração deixam de competir quando são resolvidas na mesma etapa. “A casa brasileira vive voltada para fora, e o clima da Flórida favorece esse jeito de morar. Os grandes vãos continuam possíveis quando esquadrias e proteções são desenhadas junto com a fachada, e não escolhidas depois que a estrutura está pronta”, diz.
Como o projeto entra na conta do imóvel?
A terceira pergunta envolve o custo de manter o ativo, e o seguro pesa nele. O quadro recente é de leve alívio: em 2025, as tarifas de seguro residencial na Flórida recuaram 0,92%, enquanto a média ponderada nacional avançou 5,5%, e nenhum outro estado teve redução. O dado vem de relatório da S&P Global citado pelo Florida Office of Insurance Regulation (OIR), o regulador estadual, e foi noticiado pela Florida Realtors em setembro de 2026. Mesmo com a queda, o prêmio médio por apólice entre as seguradoras privadas autorizadas pelo OIR, o chamado mercado admitido, que não inclui a estatal Citizens nem as seguradoras de linhas excedentes, está em US$ 3.736 com cobertura de vento, segundo o painel do regulador de setembro de 2026.
O estudo da Brookings faz uma ressalva útil a essa conta: o desconto não mede todo o benefício, porque deixa fora a redução de perdas que a apólice não cobre, como a franquia, a segurança dos moradores e uma eventual valorização do imóvel na revenda. O apoio público, por sua vez, deixa de fora o imóvel de investimento. O programa estadual My Safe Florida Home, que paga até US$ 10 mil por casa para reforçar aberturas e telhado, é voltado a residência principal de dono de baixa ou média renda, entre outros critérios, e não atende segunda casa, imóvel de temporada nem imóvel de aluguel.
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Com as três respostas em mãos, o comprador passa a tratar o projeto como parte da análise de compra. “O projeto precisa entrar na planilha antes da escritura. Na Flórida, essa planilha inclui o custo de manter a casa, o custo de segurá-la e a forma como ela será avaliada por quem comprar depois”, afirma a arquiteta. O portfólio dela, com residências e espaços comerciais de alto padrão, pode ser consultado nos projetos de Andria Tagliari.
