Antes de discutir modelo, ferramenta ou fornecedor, a empresa que vai contratar um projeto de inteligência artificial precisa olhar para o contrato. É ali, segundo Rafael Melo, diretor técnico da Crosoften, companhia brasileira de engenharia de software avaliada em mais de R$ 120 milhões e com mais de 2.500 projetos entregues, que muita iniciativa começa a dar errado. “A maioria dos projetos de IA não falha por causa do modelo. Falha porque começou sem escopo, sem dono e sem um contrato que proteja as duas partes”, afirma.

O alerta tem respaldo nos números. Pelos dados da iniciativa NANDA, do MIT, só uma pequena parcela dos projetos corporativos de IA generativa mostra ganho mensurável de receita ou eficiência: 95% não chegam lá. Na mesma linha, a Gartner prevê o cancelamento de mais de 40% dos projetos de IA agêntica e aponta três causas: custos em alta, valor para o negócio que não fica claro e controle de risco insuficiente.

Confidencialidade e diagnóstico primeiro

O primeiro cuidado é proteger as informações da empresa antes mesmo de existir uma proposta. Na Crosoften, o projeto começa com um acordo de confidencialidade, o NDA, e segue para um diagnóstico técnico e de riscos. Só depois dessa análise o fornecedor tem base para dizer o que será feito, quanto vai custar e em quanto tempo. Proposta apresentada antes dessa etapa tende a ser estimativa, não compromisso.

Escopo, preço e prazo fechados

A proposta que sai do diagnóstico deve fixar escopo, preço e prazo. Escopo fechado significa saber, antes de começar, o que exatamente será entregue; preço e prazo fechados dão ao contratante um parâmetro objetivo para cobrar a entrega. “Funcionamos como uma empreiteira de projetos digitais: a obra só sai do papel com o projeto fechado”, compara o executivo. Na empresa, os projetos são entregues em média em 60 dias. “Prazo fechado obriga disciplina. Em 60 dias não cabe experimento sem fim. Cabe um problema real resolvido”, diz Melo.

Um responsável de cada lado

Outro ponto que o contrato precisa resolver é quem responde pelo projeto. A falta de dono aparece na própria explicação de Melo para o fracasso de tantas iniciativas, ao lado da falta de escopo e de contrato. Definir quem decide e quem aprova as entregas, dos dois lados, evita que o projeto fique órfão no meio do caminho.

Pagamento por etapa e garantia

O contrato também precisa dizer como o dinheiro sai do caixa. Na Crosoften, os pagamentos são feitos por etapa, o que vincula cada desembolso ao avanço do projeto, e os bugs e defeitos de desenvolvimento ficam cobertos por cinco anos de garantia. Para quem contrata, cláusulas desse tipo reduzem o risco de pagar por um trabalho que não chega ao fim.

Proteção de dados desde o início

Em projetos de inteligência artificial, a frente jurídica ganha peso, porque o agente lida com informação de clientes, toma decisões e interfere em operações da empresa. Por isso a Crosoften conta com especialistas em direito digital e em adequação à LGPD desde a largada, sem deixar a proteção de dados para o fim. “Um agente de IA mexe com dado de cliente, com decisão e com dinheiro. Sem governança e LGPD desenhadas desde o primeiro dia, o risco é maior que o ganho”, afirma Melo.

O que conferir antes de assinar

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Em resumo, o contrato de um projeto de IA deve deixar claros a confidencialidade das informações, o diagnóstico técnico e de riscos, o escopo, o preço e o prazo, os responsáveis de cada lado, o pagamento vinculado às etapas, a garantia sobre o que for entregue e as regras de proteção de dados. Com isso definido, a conversa sobre tecnologia ganha um critério de sucesso. “A inteligência artificial deixou de ser vitrine. O executivo hoje não pergunta se dá para fazer; pergunta em quantos meses o projeto se paga”, diz Melo.

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