A psicóloga Elaine Taboada, que tomou posse em agosto na cadeira 29 da Academia Brasileira de Ciências, Artes, História e Literatura, dedica seu trabalho a uma questão presente em muitas casas: os conflitos que voltam a aparecer de uma geração para a outra ou de forma repetitiva na sua própria vida, por exemplo, traição, doença ou situações de abuso. A cadeira, no colegiado de Ciências da Saúde, tem como patronesse a terapeuta norte-americana Virginia Satir (1916-1988), referência da terapia familiar sistêmica. A posse está registrada na página de acadêmicos da instituição.

Radicada no Rio de Janeiro, Elaine parte da ideia de que boa parte do sofrimento que chega ao consultório tem origem em padrões aprendidos na infância com a família. O trabalho consiste em reconhecer esses padrões geracionais e interromper a repetição.

Uma herança de Satir

Reconhecida internacionalmente como terapeuta, palestrante, trainer e escritora, Satir ajudou a levar a família para dentro da terapia. Em vez de focar no problema de uma pessoa, ela entendia cada indivíduo como parte de um sistema de relações, especialmente a família, e defendia que a cura passa por restaurar a comunicação, fortalecer a autoestima e criar relações mais autênticas. A reconstrução familiar, um de seus métodos mais conhecidos, revisita a história das gerações anteriores justamente para entender o que se repete. O trabalho dela também foi modelado por Richard Bandler e John Grinder na criação do Meta Modelo e de técnicas básicas da PNL (Programação Neurolinguística).

Satir foi pioneira no olhar sistêmico e no cuidado com o feminino, e é esse ponto que a liga a Elaine: o mesmo cuidado com o feminino é a base do trabalho da psicóloga com mulheres e famílias.

“Receber a cadeira de alguém tão marcante para a história da terapia familiar me preenche de um profundo senso de responsabilidade. Firmo o compromisso de honrar e dar continuidade a quem veio antes de mim e de contribuir para a construção de famílias, relações e uma sociedade mais saudável: um mundo melhor para nós e para as futuras gerações. Sigo comprometida com a evolução da ciência, da saúde, da humanidade, do empoderamento feminino, e de um novo mundo”, afirma Elaine.

Mulheres no centro, família inteira no atendimento

Os projetos de Elaine têm as mulheres como foco, mas o atendimento inclui a família, com casais e homens entre os pacientes. Em 2023, ela fundou o Instituto Integrativo AlmaÚnica, clínica focada em saúde mental, emocional e treinamento com conceito boutique de bem-estar na Barra da Tijuca, e uma comunidade de mulheres, que inclui, no Rio, a Confraria, mesa de negócios entre mulheres que se reúne em um restaurante, e o Clube Terapêutico, além de uma versão online com alunas no Brasil e no exterior e encontro coletivo mensal. Desde 2024, Elaine também é anfitriã da Aliança Divergente e lidera, de forma voluntária, a comunidade Cariocas Divergentes. Somadas, segundo ela, essas comunidades reúnem 3 mil pessoas. A missão, segundo ela, é apoiar mulheres e famílias na construção de lares e negócios saudáveis. A comunidade, o Clube Terapêutico, a academia e a Confraria são voltados a mulheres; o Instituto AlmaÚnica e a Cariocas Divergentes recebem todos os públicos.

“Ter uma vida saudável e feliz é entregar ao mundo uma vida melhor do que a que recebemos”, diz.

O peso que recai sobre elas

Dados públicos ajudam a dimensionar o tema. Levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que, em 2022, as mulheres dedicaram em média 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, contra 11,7 horas entre os homens. Na saúde mental, o relatório World Mental Health Today, da OMS (Organização Mundial da Saúde), aponta mais de 1 bilhão de pessoas com transtornos mentais no mundo, com as mulheres desproporcionalmente afetadas. No Brasil, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais em 2025, alta de 15,66% sobre 2024. Do total, 63,46% foram para mulheres.

Da empresa ao consultório

Antes do consultório, Elaine passou 23 anos em recursos humanos, finanças e marketing. Formada em Administração, fez do autoconhecimento um eixo da carreira de gestora de RH e, desde 2010, realizou centenas de cursos de desenvolvimento humano.

Deixou o ambiente corporativo em 2018 e, no ano seguinte, aos 42 anos, começou a atuar como terapeuta. No início dessa nova fase, depois de diversas formações terapêuticas, a experiência veio da pesquisa ligada ao câncer e do método da troca justa.

Depois, realizou o sonho de cursar Psicologia, que havia ficado de lado: começou a graduação durante a pandemia e se formou em 2024. São formações distintas, ambas de base sistêmica.

“Construí cada projeto à medida que fui reconstruindo a minha própria vida”, conta.

Como interromper um ciclo familiar

Na abordagem sistêmica que Elaine adota, romper um ciclo familiar começa por identificar o padrão que se repete e a história que o sustenta, olhando para as relações e não apenas para quem sofre. A reconstrução familiar proposta por Satir é uma das ferramentas desse caminho, que a nova acadêmica imortal pretende levar a mais pessoas, também por meio do canal do Instituto AlmaÚnica no YouTube e de participações como a de um podcast recente.

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“Conhecimento só ganha sentido quando transforma vidas. Conhecimento sem decisão de mudança e ação nesta direção não gera novos resultados”, resume.

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