Longe das transmissões e das folhas salariais milionárias, a maior parte dos jogadores profissionais do país vive de contratos curtos e salários modestos. O Relatório de Transferências 2026 da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), produzido com a CBF Academy, dá a medida: nos clubes sem divisão nacional, os contratos domésticos assinados na primeira janela do ano duraram em média 5,6 meses, com remuneração média de R$ 35 mil por ano. Na conta mensal, são cerca de R$ 2,9 mil.

É nesse intervalo entre um vínculo e outro que pretende atuar a Empregol (empregol.co), plataforma criada por jogadores e ex-jogadores que chega ao mercado em outubro para conectar atletas sem contrato ativo a clubes e agentes.

Abaixo da média do país

O salário médio desses contratos fica abaixo do rendimento médio do trabalhador brasileiro, de cerca de R$ 3,7 mil, segundo a PNAD Contínua do IBGE. Um degrau acima, na Série D do Campeonato Brasileiro, o quadro melhora pouco: ali, os contratos da primeira janela tiveram duração média de nove meses e remuneração de R$ 44 mil por ano.

O próprio relatório classifica esses vínculos como “contratos precários, típicos de jogadores em busca de recolocação e de clubes com calendário de competições mais limitado”. Na prática, o contrato acompanha o calendário. Quando o clube é eliminado ou a competição acaba, o vínculo costuma terminar junto. A Série D de 2026, a maior da história, com 96 clubes, terminou em 13 de setembro, mas para boa parte dos elencos a temporada acabou bem antes. Para quem joga só o estadual, o ano é ainda mais curto: o Campeonato Carioca de 2026 durou menos de dois meses, de 11 de janeiro a 8 de março.

Regra, não exceção

O retrato mais amplo disponível mostra que esse é o padrão do futebol brasileiro. Levantamento da consultoria EY para a CBF, divulgado em 2019, contou cerca de 360 mil atletas registrados no país, dos quais 88 mil profissionais. Só 11,7 mil tinham contrato ativo na data do estudo, e 55% deles recebiam até R$ 1 mil por mês.

O fim do contrato tira do jogador, de uma vez, o salário, a estrutura de treino e o acompanhamento de comissão técnica e departamento médico. E ele ainda precisa se manter em condição de jogo para uma proposta que pode surgir a qualquer semana. Léo Vieira, sócio da Empregol e atleta do Portimonense, de Portugal, descreve a pressão da reta final: “Quando o contrato vai chegando ao fim, a cabeça já está no que vem depois. Você não sabe se vai continuar jogando nem se vai ter salário daqui a alguns meses. Por isso estar em campo, somando minutos, faz tanta diferença”, diz.

Vitrine verificada e acompanhamento

Além de Léo, a Empregol tem como sócios Matteo Zatorre, que jogou no Santos, Hygor Ribeiro, CEO da empresa, que jogou profissionalmente por clubes como Desportivo Brasil, América de Natal e Noroeste, e Caio Vieira, responsável pela área comercial.

Na plataforma, o atleta cria um perfil com posição, dados físicos, estatísticas e vídeos, que passa por checagem de identidade e de documentos, e recebe contato de clubes e agentes verificados pelo chat. No plano premium, pode contratar sessões com profissionais parceiros de saúde mental, jurídico, financeiro e preparação física a preço corporativo, com acesso mantido depois de assinar com um novo clube. A assinatura custa de R$ 24,90 a R$ 79,90 por mês, e o lançamento terá período gratuito.

Para Matteo, a renda é só parte do problema. “A gente sentiu na pele o que é estar sem contrato, sem clube, sem saber para onde ligar. Sentimos o silêncio depois que o telefone para de tocar”, conta.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

O que os números dizem sobre o salário

A resposta para quanto ganha um jogador fora da elite, portanto, está longe da imagem do futebol milionário: na Série D, cerca de R$ 44 mil por ano em contratos de nove meses; nos clubes sem divisão nacional, R$ 35 mil por ano em vínculos de 5,6 meses. Com os estaduais de 2027 ainda por começar, milhares de atletas procuram clube nestas semanas. “Nenhum atleta deveria ficar invisível só porque está entre um contrato e outro”, afirma Léo.

compartilhe