A falta de qualificação ou experiência da próxima geração está entre os principais obstáculos à sucessão em 35% das empresas familiares pesquisadas pela Deloitte. O levantamento, divulgado em julho de 2026, ouviu representantes de 1.587 companhias com faturamento anual de pelo menos US$ 100 milhões, distribuídas por 35 países.

A pesquisa também mostra que 38% dos participantes apontam os avanços tecnológicos entre os maiores desafios enfrentados pelos futuros líderes, enquanto 37% destacam a necessidade de desenvolver competências de liderança e gestão.

Os resultados colocam em discussão a formação de uma geração que poderá assumir empresas familiares, ocupar posições executivas ou desenvolver seus próprios negócios. Em um ambiente marcado pelo avanço da inteligência artificial (IA) e pela automação, dominar ferramentas tecnológicas é apenas uma parte da preparação. Conhecimentos de finanças, estratégia, governança, comunicação e capacidade de tomar decisões também ganham espaço nas exigências do mercado.

Escolha da graduação pode mudar os rumos, dizem jovens

A preocupação com a preparação dos sucessores aparece em outro indicador da Deloitte. Embora 82% das empresas familiares pesquisadas afirmem possuir algum tipo de planejamento sucessório, apenas 46% consideram seus planos abrangentes e bem desenvolvidos. O levantamento aponta ainda que 40% das organizações exigem que integrantes da próxima geração adquiram experiência profissional fora dos negócios da família antes de assumir funções na companhia.

Para jovens que estão concluindo o ensino médio, esse movimento também influencia a escolha da graduação. A decisão envolve não apenas a identificação de uma carreira, mas a busca por uma formação capaz de acompanhar as transformações tecnológicas e as novas responsabilidades exigidas de quem pretende liderar equipes, administrar empresas ou empreender.

Ana Clara Marques, de 18 anos, moradora de Itaim Bibi, em São Paulo (SP), considera que a escolha de uma universidade deve levar em conta as oportunidades de desenvolvimento profissional.

"Vejo que a escolha de uma graduação próxima de ambiente empresarial faz muito sentido, pois posso adquirir mais expertise para aplicar no dia a dia", pontua.

Para Mateus Ribeiro, de 18 anos, de Belo Horizonte, a tecnologia está mudando muito rápido e é preciso aprender por ela a liderar. "É uma questão de tomar decisões e entender como os negócios funcionam", acrescenta.

A preocupação também aparece entre estudantes de outras regiões. Um jovem de 20 anos, morador de Prado, no extremo Sul da Bahia, destaca a importância de uma formação conectada ao mercado. "Hoje eu trabalho com minha mãe em nossa pousada, porque a cidade é bastante turística e vejo o quanto é importante estudar economia, administração e finanças para ter condições de ajudar aqui na operação", diz.

Formação de futuros executivos vai além do domínio da tecnologia

Para a especialista em educação, Mila Securato, que também é diretora executiva da Graduação da Escola de Negócios Saint Paul, a formação dos novos administradores precisa acompanhar as mudanças na maneira como as empresas operam e tomam decisões.

"Formar um administrador hoje não pode significar apenas transmitir conhecimentos de gestão. Estamos preparando jovens que precisarão interpretar cenários, compreender tecnologia, trabalhar com pessoas, tomar decisões sob incerteza e continuar aprendendo ao longo da vida", avalia.

A inteligência artificial acrescenta uma nova dimensão a esse processo. Ferramentas capazes de produzir relatórios, organizar informações, analisar dados e automatizar atividades já fazem parte da rotina de diferentes organizações. Para os futuros executivos, o desafio passa a incluir a capacidade de interpretar os resultados dessas tecnologias e utilizá-los em decisões empresariais.

O levantamento da Deloitte também identificou que 42% dos participantes esperam que a próxima geração priorize investimentos em inteligência artificial. O mesmo percentual prevê maior atenção à modernização tecnológica dos negócios.

Na avaliação de Mila Securato, essa transformação deve ser considerada pelas famílias no momento de discutir os caminhos acadêmicos e profissionais dos jovens.

"A escolha de uma graduação acontece num momento em que o jovem ainda está começando a compreender o mundo profissional. Não basta apresentar uma grade curricular. É preciso pensar que tipo de formação faz sentido para uma geração que vai trabalhar, empreender e liderar em um ambiente muito diferente daquele em que seus pais começaram suas carreiras", comenta.

De acordo com o doutor em educação patrimonial, Lourenço Damasceno, a tecnologia transforma profissões e acelera o acesso à informação. "É fundamental que os jovens também desenvolvam consciência sobre o valor do que constroem e do que recebem das gerações anteriores".

O docente pontua que a educação patrimonial contribui para formar pessoas capazes de compreender o impacto de suas escolhas. "Reconhecer essas responsabilidades e pensar no longo prazo ajuda futuros líderes nessa fase de preparação para ocupar cargos, afinal precisamos formar cidadãos que saibam preservar, transformar e deixar um legado", orienta.

Salvador recebe encontro sobre formação e carreira executiva

A discussão sobre as competências exigidas dos futuros líderes será levada à capital baiana pela instituição de ensino liderada por Mila Securato. O evento será realizado na segunda-feira, 19 de outubro, uma edição de um Open Day, encontro voltado a estudantes e familiares que estão no processo de escolha da graduação e da carreira.

Salvador integra um circuito de várias capitais brasileiras que já receberam o evento, entre elas Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, Maceió e Recife.

A programação abordará temas relacionados a empreendedorismo, inovação, negócios, inteligência artificial e às mudanças nas competências exigidas pelo mercado. A iniciativa também pretende aproximar os participantes de discussões sobre formação em Administração e preparação para posições de liderança.

Segundo dados da instituição, em 12 meses a iniciativa alcançou participantes de 177 cidades, em 24 estados e no Distrito Federal, além de mapear 545 escolas. A escola de negócio, por exemplo, afirma ter formado cerca de 500 mil alunos e, em fevereiro de 2026, ampliou sua atuação para o ensino superior, com a abertura de suas primeiras turmas de Administração.

"Quando decidimos construir a graduação, não queríamos simplesmente adaptar para jovens aquilo que a Saint Paul já fazia na educação executiva. Era necessário pensar uma experiência acadêmica própria. Ir até essas cidades faz parte dessa lógica de ouvir estudantes, famílias e escolas, compreender contextos diferentes e trazer esse conhecimento para a forma como pensamos a formação", diz Mila Securato.

Experiência prática ganha peso na preparação de jovens líderes

O contato antecipado com o ambiente empresarial também aparece entre as estratégias adotadas pelas empresas familiares para preparar seus sucessores.

Segundo a Deloitte, 44% dos participantes afirmam atribuir funções formais, com responsabilidades e avaliação de desempenho, aos integrantes da próxima geração. Outros 43% utilizam treinamentos práticos e acompanhamento de lideranças experientes como instrumentos de desenvolvimento profissional.

A formação acadêmica pode contribuir para esse processo ao aproximar os estudantes de problemas reais de gestão, decisões financeiras, planejamento estratégico e relacionamento com diferentes áreas de uma organização.

Na Saint Paul, que iniciou suas primeiras turmas da graduação em Administração em fevereiro de 2026, a proposta pedagógica combina conteúdos de gestão, finanças e estratégia com disciplinas relacionadas à inovação, empreendedorismo, liderança e inteligência artificial.

Segundo a instituição, os estudantes também trabalham com casos empresariais, mantêm contato com executivos e empreendedores e podem participar de iniciativas como a Empresa Júnior.

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Essa combinação busca atender tanto jovens interessados em construir carreiras executivas quanto aqueles que pretendem empreender ou participar, futuramente, da administração de negócios familiares. Para esse último grupo, a preparação também envolve compreender estruturas de governança, relações entre sócios e os desafios de preservar a continuidade das empresas ao longo das gerações.

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