Apenas 16,1% dos CEOs têm hoje um sucessor preparado para assumir o cargo, segundo levantamento que também mostrou que 19,3% deles não planejam parar de trabalhar e que 6,9% pretendem continuar na ativa depois dos 80 anos. Os números ajudam a entender um impasse cada vez mais comum nas organizações: a vida profissional ficou mais longa, mas a passagem de bastão não acompanhou o mesmo ritmo.
Para o psicólogo clínico Rodrigo Toledo Potechi, pós-graduado em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, esse descompasso não fica restrito aos organogramas. Ele aparece no consultório, na forma de profissionais que se cobram por não terem chegado aonde imaginavam.
Vida mais longa, cargos que demoram a abrir
A mudança demográfica é expressiva. Em 1940, período em que o Brasil acelerava sua industrialização, a expectativa de vida ao nascer era de 45,5 anos. Em 2024, alcançou 76,6 anos, e quem completa 60 hoje pode esperar viver mais 22,6 anos. Com isso, baby boomers, geração X, millennials e geração Z dividem as mesmas empresas, e um jovem de 20 e poucos anos pode trabalhar ao lado de colegas ativos aos 70 ou 80.
No passado, o crescimento econômico abria postos em ritmo acelerado. Em 1985, a indústria de transformação concentrava 26,2% do emprego formal no país. Em 2024, a fatia caiu para 14,8%. Em 2026, 60% dos CEOs brasileiros consultados pela PwC disseram esperar menos profissionais em início de carreira nos três anos seguintes, por efeito da inteligência artificial.
Quando a espera vira cobrança pessoal
Nesse cenário, uma geração formada com a ideia de que estudo, esforço e qualificação levariam ao avanço passou a perceber que o caminho ficou mais estreito e mais demorado. No consultório, segundo Toledo, a queixa raramente chega com nome de sucessão corporativa. Aparece em frases como "eu devia estar melhor aos 38" e "parece que todo mundo avançou, menos eu".
"Não estamos diante apenas de uma geração mais ansiosa ou menos tolerante à frustração. É uma geração que recebeu uma promessa de mobilidade baseada em estudo, trabalho e desempenho, mas chegou à vida adulta num mundo em que posições e oportunidades circulam de outra maneira. Diante desse descompasso, tenta compensar performando cada vez mais. Em algum momento, corpo e mente cobram a conta", afirma o psicólogo.
A tentativa de compensação, de acordo com ele, costuma incluir jornadas maiores, novos cursos e menos descanso, e pode desembocar em ansiedade, insônia, episódios depressivos e burnout. Em 2025, a Previdência concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,66% sobre o ano anterior.
"Uma geração inteira aprendeu que, se o resultado não veio, faltou alguma coisa nela: qualificação, disciplina, produtividade, resiliência. Então, aumenta a dose de tudo. Talvez estejamos tentando corrigir indivíduos para adaptá-los a uma equação que também mudou fora deles", diz Toledo.
Nenhuma geração precisa ser culpada
O psicólogo pondera que seria um erro atribuir o problema aos profissionais mais velhos. O mesmo mercado que prolonga carreiras também descarta cedo: levantamento da PwC Brasil em parceria com a FGV (Fundação Getulio Vargas) apontou que 86% das empresas pesquisadas não tinham planos de carreira para profissionais acima dos 40 anos. Numa mesma estrutura, pode haver alguém de 28 anos tentando entrar, outro de 42 tentando subir, um de 52 tentando permanecer e um de 70 sem planos de sair.
"No fim, desenvolvimento deveria ampliar possibilidades humanas, não apenas abreviar processos. Se estamos vivendo mais, precisamos encontrar formas de fazer essas vidas caberem num mundo profissional cada vez mais enxuto, automatizado e competitivo. Pessoas de 28, 42, 52 ou 70 anos continuam sendo pessoas antes de serem recursos, cargos ou indicadores de produtividade", ressalta.
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Para as empresas, a sucessão envolve, portanto, mais do que escolher um nome para o topo. Passa por redesenhar a convivência entre gerações, de modo que experiência e renovação circulem juntas. Para quem espera a vez, Toledo lembra que "cuidar da saúde mental também passa por reconhecer isso: distinguir o que pertence ao sujeito, o que pertence ao mundo em que ele vive e o que ainda pode ser construído entre os dois, sem transformar em culpa individual aquilo que também nasce de um problema estrutural, coletivo e social".
