Cada hora em que um torno ou centro de usinagem CNC (Controle Numérico Computadorizado) fica parado enquanto alguém escreve o programa da peça é produção que a fábrica deixa de entregar. Com equipamentos que podem custar de centenas de milhares a milhões de reais, a indústria brasileira passou a olhar com atenção para o intervalo entre o projeto digital e o primeiro corte. Para Camila Sarantopoulos, CEO da TECC Indústria Inteligente, programação assistida e inteligência artificial ajudam a encurtá-lo.
Programar no painel deixa o equipamento sem produzir
Antes de usinar qualquer componente, é preciso definir ferramentas, sequência, velocidades, avanços e trajetórias sem colisão. Quando isso é feito no painel do CNC, linha por linha, a máquina fica indisponível o tempo todo.
Foi o cenário enfrentado pela Prime Indústria Aeroespacial, fabricante brasileira de componentes de alta precisão, durante a estruturação de sua ferramentaria. De acordo com estudo de caso validado pela empresa, a adoção da programação CAM (manufatura assistida por computador) offline fez atividades que levavam horas passarem a ser concluídas em minutos. A companhia também registrou redução de até 40% no tempo de corte, eliminou as peças de teste e passou a usar simulação para diminuir o risco de colisões ao adotar o Mastercam, solução CAM para manufatura.
“O Mastercam foi um divisor de águas para consolidar nossa produtividade logo na largada”, afirmou Vanderley Faxina, da área de engenharia e produção da Prime Aeroespacial, no estudo de caso.
Inteligência artificial assume a parte repetitiva
O passo seguinte já chegou às fábricas. Sistemas de CAM associados à inteligência artificial reconhecem características geométricas das peças e sugerem ou geram operações de usinagem que antes eram montadas uma a uma pelo programador. O programador experiente ganha tempo para validar estratégias e resolver processos complexos.
“O maior ganho não está necessariamente em substituir o conhecimento do programador, mas em multiplicar sua capacidade. Existe um conhecimento industrial acumulado durante anos dentro dessas pessoas. Quando a tecnologia assume parte do trabalho repetitivo, esse profissional pode usar sua experiência onde ela realmente gera valor”, afirma Sarantopoulos.
Dados dos projetos pedem cuidado
A adoção ainda esbarra numa dúvida frequente entre empresários: o que acontece com projetos e estratégias de fabricação quando entram em sistemas de IA. “Um dos receios que mais ouvimos das indústrias é em relação à confidencialidade dos projetos quando entram ferramentas de inteligência artificial. A dúvida é legítima: se uma empresa compartilha uma peça, um processo ou uma estratégia de usinagem com uma IA, esse conhecimento poderia, de alguma forma, beneficiar concorrentes? Esse tipo de preocupação é natural sempre que uma nova tecnologia começa a ocupar espaço dentro das empresas”, comenta a executiva.
Segundo ela, o caminho se parece com o de outras inovações. “Foi assim com o e-mail, com a nuvem e com tantas outras tecnologias que, em um primeiro momento, despertaram desconfiança. Com o tempo, à medida que segurança, governança e regras de uso foram amadurecendo, essas ferramentas passaram a fazer parte da rotina empresarial.”
As condições de uso variam conforme a arquitetura da ferramenta, as políticas do fornecedor, os contratos, as regras de retenção e, principalmente, a forma como os dados dos clientes são ou não usados para treinar modelos.
“Na indústria, acredito que acontecerá algo semelhante com a inteligência artificial. A preocupação com proteção de dados precisa existir e precisa ser tratada com seriedade, mas o potencial de ganho em produtividade, velocidade de programação, redução de tarefas repetitivas e melhor aproveitamento dos profissionais é grande demais para ser ignorado. A discussão tende a deixar de ser ‘se a indústria vai usar IA’ e passar a ser ‘como usar IA com segurança, governança e vantagem competitiva’”, afirma Camila Sarantopoulos.
Menos tempo parado, mais peças entregues
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Reduzir o tempo de máquina CNC parada passa por tirar a programação do painel, simular antes de cortar e usar sistemas que automatizam operações repetitivas, com regras claras para os dados. Num país em que 62% dos empresários ouvidos pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) apontam a dificuldade de contratar mão de obra qualificada como um dos principais componentes do Custo Brasil, encurtar esse intervalo também significa aproveitar melhor os profissionais que a fábrica já tem.
