A ponte sobre o rio Paraguai é a parte que aparece nas fotos. O corredor é o que ainda não existe. Para a Rota Bioceânica funcionar como operação, três coisas precisam ficar prontas ao mesmo tempo, e cada uma tem um prazo diferente. A ponte entre Porto Murtinho (MS) e Carmelo Peralta (Paraguai), com 1.294 metros e US$ 103 milhões financiados pela margem paraguaia de Itaipu, tem conclusão prevista para setembro de 2026, depois do encontro das aduelas em 23 de julho.
Os acessos vêm depois. No lado brasileiro, a adequação da BR-267 pelo DNIT e o conjunto de alça de 13,1 quilômetros, contorno rodoviário e centro aduaneiro, obra do PAC, só aparecem no cronograma em fevereiro de 2027. No Paraguai, avançam as conexões com a PY15. E há a terceira camada: os complexos integrados de fronteira, onde ficam os procedimentos alfandegários e migratórios, ainda em montagem. Não há data de inauguração.
“Uma ponte concluída não abre um corredor. O que abre corredor é a combinação de estrutura, acesso pavimentado e controle aduaneiro funcionando ao mesmo tempo. Enquanto esses três relógios não estiverem sincronizados, o ganho de tempo que se promete no mapa não aparece na operação”, afirma Lucas Vidal Cardoso, da Interlink Cargo, especializada em transporte rodoviário internacional de cargas no Mercosul.
A aduana, segundo ele, é o relógio que decide o custo. A ANTT reorganizou em 2026 os acordos que regulam as autorizações do transporte internacional (Portaria SUROC nº 17/2026), e a migração para a Declaração Única de Importação no modal terrestre tem prazo em dezembro de 2026, com catálogo de produtos cadastrado e licenças digitais. Em Uruguaiana, o Sistema VAI já exige cadastro prévio de veículos e motoristas e agendamento digital desde setembro de 2025. É o desenho que Porto Murtinho vai encontrar.
“A gente vem se preparando para o corredor pela via documental, que é onde a operação trava de verdade. Certificação, habilitação e dado antecipado valem mais do que quilômetro economizado, porque carga parada em fronteira custa igual em estrada nova e em estrada velha”, diz o executivo.
A Interlink Cargo atua entre Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, tem certificação OEA Segurança desde 2023 e trabalha com carga química apoiada no SASSMAQ desde 2019.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Para quem acompanha o corredor, setembro é um marco real, mas parcial: a ponte vira ativo; o corredor ainda depende de asfalto, aduana e de um ambiente regulatório que muda em dezembro.
