Antes de qualquer clique em anúncio, uma parcela crescente dos compradores corporativos já perguntou a um assistente de inteligência artificial quem resolve o problema da empresa. E a resposta que a IA devolve não nasce do site da marca. Análises de citações de assistentes como o ChatGPT indicam que a maior parte das menções a fornecedores tem origem em imprensa e conteúdo editorial, não em páginas próprias das companhias. Na prática, isso significa que uma empresa pode ter um site completo, um catálogo bem descrito, e ainda assim não aparecer quando um comprador pergunta à IA quem atende ao problema dele. Quem está publicado nos veículos que os modelos leem entra na resposta. Quem não está, fica de fora justamente na etapa em que o comprador ainda está formando a lista de opções, a mais barata de influenciar e a mais cara de reverter depois.

Para Dan Freitas, sócio da Nexus Growth, consultoria que já geriu mais de R$ 300 milhões em investimentos de mídia paga para empresas como Conta Simples, Hand Talk e V4, esse é um ponto cego que a maioria das empresas B2B ainda não percebeu. Levantamentos internacionais recentes sobre a jornada de compra corporativa, como o acompanhamento da Forrester, indicam que cerca de metade dos compradores B2B já inicia a descoberta de fornecedores em assistentes de inteligência artificial, antes de qualquer busca tradicional ou clique em anúncio.

O efeito prático aparece depois, na ponta paga do funil. Quando o comprador finalmente clica no anúncio, ele frequentemente já pesquisou o problema, comparou abordagens e leu sobre as empresas que apareceram nas respostas da IA. O anúncio, que os relatórios tratam como primeiro contato, chega no meio de uma conversa que começou semanas antes.

Que empresa aparece nessa conversa

A assimetria entre companhias fica maior quando se olha para onde as IAs buscam informação. Se a origem predominante das citações é editorial, presença na imprensa deixa de ser um ativo de reputação e passa a funcionar como um requisito de visibilidade na etapa mais inicial da compra. Uma empresa pequena ou média que nunca apareceu num veículo de imprensa dificilmente vai aparecer numa resposta de IA sobre o próprio setor, mesmo que tenha um produto competitivo e um site bem construído.

"O gerenciador atribui ao anúncio uma decisão que começou semanas antes, dentro de uma conversa com uma IA que nenhum pixel enxerga. O clique deixou de ser o primeiro contato e virou reencontro. Quem calcula o CAC ignorando essa primeira metade está medindo o custo da colheita e chamando de custo da plantação", afirma Freitas.

Como saber se a empresa está entrando nessa lista

Freitas recomenda que a empresa comece medindo a própria linha de base: perguntar às principais ferramentas de IA as questões que o cliente ideal faria e registrar quem aparece nas respostas, repetindo esse exercício periodicamente para acompanhar mudanças. É um teste simples, que qualquer empresa pode fazer sem depender de ferramenta paga, e que já revela se a marca está ou não circulando nas respostas que os compradores recebem antes de procurar um fornecedor.

O consultor também recomenda tratar presença editorial como infraestrutura de conversão do funil pago, não como canal paralelo de branding, já que o conteúdo que a IA cita é o que prepara o clique que o anúncio depois colhe. E defende recuperar uma pergunta que o mercado abandonou: como você nos conheceu.

"A pergunta 'como você nos conheceu' virou a métrica mais subestimada do B2B. O CRM diz que o cliente veio do anúncio. O cliente diz que perguntou para uma IA quem resolvia o problema dele. Os dois estão certos, e só a segunda resposta explica por que o anúncio converteu", diz.

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A mídia paga continua sendo, segundo o consultor, o instrumento de colheita mais rápido disponível no mercado. O que muda é a origem da vantagem competitiva, que passa a ser construída antes do leilão, na camada de resposta onde o comprador decide quem merece o clique. Empresas que não aparecem nessa camada seguem pagando cada vez mais caro por um leilão que só chega depois de uma conversa que nunca souberam que existiu.

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