A eleição de 2026 vai ser lembrada como a primeira em que a inteligência artificial deixou de ser assunto de painel e virou ferramenta de trabalho dentro das campanhas brasileiras. O debate público concentrou-se na parte visível e ruidosa da tecnologia: o vídeo sintético exibido pelo PL na convenção nacional, o julgamento sobre a imagem de Jair Bolsonaro gerada por IA, as regras do Tribunal Superior Eleitoral sobre conteúdo manipulado. Mas o uso que mais cresce nas campanhas é o invisível: a IA que não aparece na tela e serve para decidir onde o candidato vai gastar seu tempo, seu dinheiro e sua voz.

É nessa faixa que opera a Seja Eleito Brasil, consultoria de marketing político sediada em Botucatu, no interior de São Paulo, que chega a 2026 com duas plataformas próprias no ar: a Horus Data, sistema de inteligência eleitoral, e a Máquina de Narrativas, plataforma de geração de conteúdo político com IA.

Por trás das duas está o jornalista José Conte, 46 anos, na imprensa desde 2001 e em campanhas desde 2008. Ele soma mais de 200 campanhas atendidas em todas as regiões do país, quase sempre no mesmo modelo: ensinar o método à equipe do candidato em vez de assumir a operação. Foi assim em Miguelópolis (SP), em 2016, quando um candidato que disputava pela terceira vez e aparecia em terceiro lugar terminou eleito prefeito com 57,98% dos votos válidos, 7.406 votos contra 5.152 do segundo colocado. E foi assim em Maximiliano de Almeida (RS), em 2020, com um estreante de 22 anos que se tornou o vereador mais votado da eleição e, quatro anos depois, prefeito da cidade.

"Campanha se perde muito mais por desperdício do que por falta de dinheiro", diz Conte. "O candidato sobe no palanque errado, na cidade errada, falando de um assunto que ali não decide voto nenhum. Quando você tem dado, você para de adivinhar".

O que a Horus faz

A Horus Data cruza bases públicas (resultados do TSE por seção e por setor censitário, dados socioeconômicos do IBGE, indicadores de saúde e segurança e o noticiário local) para montar o retrato do território de uma candidatura. O sistema devolve o mapa dos setores onde o candidato tem voto consolidado, dos setores onde há voto disponível e dos que não valem a viagem, além de um índice de viabilidade, o Score Horus, que vai de 0 a 100 e agrega mais de 40 variáveis.

Numa leitura recente feita para um pré-candidato do litoral paulista, o sistema identificou 57 setores em que candidaturas de terceira via ficaram acima da média nas últimas dez eleições, 296 setores com população envelhecida e 271 com concentração de jovens de baixa escolaridade, três públicos que exigem três discursos distintos dentro da mesma cidade. A plataforma inclui ainda CRM de eleitores, gestão de lideranças e alertas diários de recomendação. Os planos começam em R$ 490 por mês.

O que a Máquina de Narrativas faz

A segunda plataforma ataca outro gargalo, o mais comum entre candidatos de baixo orçamento: produzir conteúdo todo dia sem equipe. A Máquina de Narrativas gera roteiros de vídeo, posts, stories e roteiros de reunião a partir do perfil e das bandeiras do candidato, monitora em tempo real as notícias do nicho e traz teleprompter integrado, para que o próprio candidato grave sem depender de videomaker. A assinatura custa R$ 97 por mês ou R$ 890 por ano, com sete dias de teste gratuito.

"Um vereador de cidade pequena não tem assessoria, não tem redator, não tem videomaker. Ele tem o celular e vinte minutos livres por dia", afirma Conte. "A tecnologia que interessa a esse candidato não é a que inventa realidade. É a que organiza o trabalho dele".

O limite legal

A distinção não é apenas comercial. Em março de 2026, o TSE aprovou a Resolução 23.755/2026, que atualizou as regras de propaganda eleitoral para o uso de inteligência artificial. A norma exige identificação explícita de conteúdo sintético, proíbe deepfakes destinados a favorecer ou prejudicar candidaturas e veda recomendação eleitoral por sistemas de IA, aprofundando a regulamentação estreada nas municipais de 2024.

"O conteúdo que a Máquina gera é o candidato falando a própria fala, com o próprio rosto e a própria voz. Não existe rosto emprestado, não existe áudio fabricado", diz Conte. "E a Horus não fala com eleitor: ela fala com quem coordena a campanha. Análise não é propaganda".

A conta que explica a demanda

A procura tem uma aritmética simples por trás. Em São Paulo, mais de mil candidatos disputam as 70 cadeiras da bancada federal; no Distrito Federal, são 419 nomes para 24 vagas na Câmara Legislativa. A maioria trava a mesma disputa: pouco dinheiro, pouca estrutura e um eleitorado que não sabe que eles existem.

A metodologia que sustenta as duas plataformas foi organizada em cinco pilares: Radar de Relevância, Arquitetura de Autoridade, Narrativa de Impacto, Engenharia de Valor e Conversão Invisível, e também é distribuída em cursos e e-books, entre eles o "Manual do Político Estratégico" e "A Arte da Guerra na Política Brasileira", adaptação de Sun Tzu ao cenário nacional.

"Ninguém elege ninguém com software. Software não aperta mão, não vai a velório, não olha no olho", diz o consultor. "O que a tecnologia faz é impedir que o candidato gaste os últimos trinta dias de campanha no lugar errado. Em eleição proporcional, isso costuma ser a diferença entre a cadeira e a suplência."

Mais informações:

sejaeleito.com.br

horusanalytics.com.br

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