É comum associar o suicídio quase exclusivamente à depressão. Para o psicólogo Rodrigo Toledo, psicólogo clínico com atuação em São Paulo, pós-graduado em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, parar a explicação nesse ponto empobrece um fenômeno mais complexo do que parece à primeira vista, e pode até atrapalhar a forma como famílias e comunidades reconhecem quem precisa de ajuda.

O que o diagnóstico não explica sozinho

No transtorno bipolar, por exemplo, o risco de suicídio é reconhecidamente elevado e exige atenção clínica, especialmente em períodos de maior desorganização do humor e na presença de outros fatores de vulnerabilidade. É um dado importante, mas que precisa ser lido junto com o restante do quadro de vida da pessoa, não isoladamente.

Ainda assim, segundo Rodrigo Toledo, a associação entre transtorno mental e suicídio não substitui a compreensão dos fatores sociais, culturais e ambientais que também pesam na vida de quem sofre. Tratar o diagnóstico como ponto final da explicação, e não como parte dela, é justamente o que a crítica à medicalização do sofrimento tenta evitar.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) descreve o suicídio como um fenômeno multifatorial, atravessado por elementos sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais. Violência, perdas, isolamento, discriminação, conflitos afetivos, dificuldades financeiras e uso problemático de álcool e outras drogas podem se combinar de formas muito diferentes de pessoa para pessoa, o que ajuda a explicar por que duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem viver o sofrimento de maneiras completamente distintas.

Relatórios da entidade, como o Preventing Suicide: A Global Imperative e atualizações do Suicide Worldwide, apontam o Brasil como um dos poucos países das Américas em que as taxas de suicídio mantiveram tendência de alta na última década, o que reforça que o problema não vem diminuindo apenas com a ampliação do diagnóstico clínico.

A escala do problema no Brasil

Os números ajudam a dimensionar por que o tema exige um olhar mais amplo. A ABP e o CFM apontam que o Brasil registra cerca de 14 mil suicídios por ano, o equivalente a mais de 38 casos por dia. Boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde, com base no SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) do DATASUS, trazem números consolidados entre 14.000 e 15.500 óbitos anuais, considerando ajustes de subnotificação, o que resulta em uma média de 38 a 42 mortes diárias, um volume que dificilmente se explicaria só pela presença ou ausência de um diagnóstico.

Diante desses números, Rodrigo Toledo defende que o diagnóstico clínico seja tratado como parte de uma resposta mais ampla, não como explicação única. "Não adianta dizer que precisamos falar sobre suicídio se a campanha não suporta ouvir as diferentes formas pelas quais o sofrimento aparece. Nem todo mundo sofre do mesmo jeito, nem pelas mesmas razões", afirma o psicólogo.

Reconhecer que quase todos os casos envolvem algum transtorno diagnosticável não fecha a explicação sobre o suicídio, mas abre caminho para um cuidado mais completo, que combine acompanhamento clínico, escuta qualificada e atenção aos fatores sociais que também atravessam a vida de quem sofre. É esse cuidado mais completo, e não apenas o diagnóstico em si, que tende a fazer diferença real na prevenção.

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