Antes de assinar mais uma ferramenta de inteligência artificial ou de contratar uma consultoria para automatizar um processo interno, existe uma pergunta que deveria vir antes de qualquer proposta comercial: essa tarefa é feita exatamente igual em todas as empresas do seu setor? Se a resposta é sim, trata-se de commodity, e comprar é a decisão certa. Se a resposta é não, se o jeito como a empresa faz aquilo é parte do motivo pelo qual o cliente a escolhe, então aquilo é núcleo do negócio, e núcleo não se terceiriza.

O critério é defendido por Guilherme Friol, CEO da Vircos, empresa de engenharia de inteligência artificial corporativa. Segundo ele, boa parte dos gestores trata toda decisão de IA da mesma forma, o que leva a dois erros simétricos: comprar o que deveria ser construído internamente e construir do zero o que já está resolvido no mercado.

"Transcrever uma reunião é igual no mundo inteiro. Decidir a quem você concede crédito, não. Se essas duas decisões estão sendo tratadas com o mesmo critério de compra, alguma coisa está errada", afirma Guilherme Friol.

O que é seguro comprar

Tarefas de uso geral, como transcrição de áudio, leitura automática de documentos, tradução, rascunho de e-mail, resumo de texto longo e geração de imagem, são resolvidas por dezenas de fornecedores, com qualidade parecida e preço em queda. Para o executivo, construir qualquer uma delas do zero é gastar dinheiro para chegar onde o mercado já chegou. O cuidado nesse caso não é o que comprar, mas quanto: ferramentas de commodity tendem a se multiplicar sem controle dentro da empresa, com cada área assinando a sua própria versão.

O que a empresa nunca deveria entregar a terceiros

Do outro lado está a lógica que faz a empresa ganhar dinheiro do jeito dela: como ela precifica, como qualifica um lead, como decide um limite de crédito, como avalia o risco de um fornecedor. São regras construídas com anos de erro e acerto, muitas vezes sem estar escritas em lugar nenhum, moram na experiência das pessoas mais antigas da operação.

Quando essa lógica passa a rodar dentro de uma ferramenta de terceiro, a empresa perde a capacidade de auditar e explicar o próprio resultado. Se o fornecedor muda algo no sistema, não há a quem perguntar por quê.

"O risco não é a ferramenta errar. É a empresa não conseguir explicar por que ela acertou", diz Guilherme Friol.

Como aplicar o teste na prática

Para os casos que não são nem commodity pura nem núcleo puro, como o atendimento ao cliente, em que a mecânica de responder é genérica mas o tom e o critério de escalonamento são próprios da empresa, o executivo recomenda uma arquitetura híbrida: comprar a camada genérica e construir a camada de decisão em cima dela. Assim, se o fornecedor da camada comprada reprecificar ou mudar de comportamento, a regra de negócio da empresa continua onde estava.

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Antes de aprovar a próxima ferramenta de IA, a recomendação prática que fica do critério é simples: rodar a pergunta em cada processo candidato à automação e verificar se a resposta aponta para compra ou para construção interna, antes de comprometer orçamento com qualquer um dos dois caminhos.

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