Toda proposta de ferramenta de inteligência artificial chega com um problema já resolvido. É esse o formato que faz a empresa assinar sem perceber o que está entregando junto. Antes de qualquer contratação, há três perguntas que não exigem conhecimento técnico nem refazer a estrutura de tecnologia, mas mudam a decisão.
A recomendação é de Guilherme Friol, CEO da Vircos, empresa de engenharia de inteligência artificial corporativa. Segundo ele, o problema da compra não é a compra em si, e sim a ausência de um critério que separe o que pode ser contratado do que precisa permanecer sob controle interno.
Pergunta 1: qual regra de negócio essa ferramenta vai executar?
Se a resposta for uma tarefa que toda empresa faz do mesmo jeito, como transcrição, leitura automática de documentos ou tradução, comprar continua sendo a decisão correta. Se a resposta for uma regra que define como a empresa decide, o que fazer quando uma entrega atrasa, como aprovar um crédito, como priorizar um atendimento, o cenário muda. Essa regra é o que diferencia a empresa das outras, e ela passaria a rodar dentro do sistema de um terceiro.
"Se a lógica que define como a sua empresa decide está rodando dentro do sistema de outra empresa, quem decide é a outra empresa. Isso não é uma opinião sobre tecnologia, é uma descrição do arranjo", afirma Friol.
Pergunta 2: quem consegue explicar por que a ferramenta chegou a determinado resultado?
Se ninguém dentro da empresa souber responder, a operação depende de um critério que não conhece. A pergunta serve para identificar, antes da assinatura, se existe alguém do lado de dentro capaz de defender ou contestar uma decisão que a ferramenta tomou.
Pergunta 3: o que acontece com a operação se o fornecedor alterar ou encerrar o serviço?
Modelos de inteligência artificial são atualizados, substituídos e descontinuados com frequência, em decisões que não passam pelo cliente. Uma alteração no comportamento do modelo pode mudar o resultado de um processo interno sem que a empresa seja consultada ou avisada. Saber o que acontece nesse dia é parte da conta.
Por que ninguém faz as perguntas
"Ninguém terceiriza a decisão de propósito. Terceiriza porque a proposta chegou com um problema resolvido e ninguém perguntou onde a regra ia morar", diz o executivo.
A confusão é alimentada pelo mercado. A consultoria Gartner descreve como agent washing a prática de renomear assistentes e chatbots existentes como agentes de IA, estima que apenas cerca de 130 fornecedores entre milhares sejam reais nessa categoria, e projeta que mais de 40% dos projetos de IA agêntica sejam cancelados até o fim de 2027, por custos crescentes, valor pouco claro ou controles insuficientes.
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As três perguntas ganham peso à medida que a IA sai de tarefas periféricas e passa a definir preço, prioridade e limite de risco. Enquanto resumia reuniões, a discussão sobre quem controla o critério era abstrata. Em processos críticos, tem efeito direto no resultado. As respostas, segundo Friol, costumam indicar com clareza o que pode ser contratado e o que precisa ser construído.
