Empresários que buscam orçamentos de inteligência artificial costumam ouvir a mesma promessa de diferentes fornecedores: "vamos treinar uma IA para o seu negócio". Os valores apresentados, no entanto, variam consideravelmente, assim como os prazos. Para Guilherme Friol, CEO da Vircos, empresa de engenharia de inteligência artificial corporativa, essa discrepância não indica necessariamente má-fé: trata-se, segundo ele, de serviços diferentes descritos pela mesma palavra.
O significado técnico de "treinar"
Treinar um modelo de linguagem, no sentido técnico, é construir a inteligência a partir de grandes volumes de dados, processo que exige infraestrutura de altíssimo custo e equipes de pesquisa especializadas. Segundo Friol, essa etapa é conduzida pelas empresas responsáveis pelos modelos de fronteira, não por companhias de médio porte no Brasil.
Existe ainda uma variação intermediária, o ajuste fino, em que um modelo já concluído é refinado com dados específicos. Trata-se de uma técnica legítima, aplicada em situações determinadas, mas que representa uma fração pequena dos projetos corporativos.
Por que a expressão se popularizou
Segundo o executivo, o motivo é comercial. "Marketing prefere simplicidade. Engenharia prefere precisão. Os dois raramente tomam café juntos", afirma Guilherme Friol. Descrever o serviço com termos técnicos, como pipeline de recuperação de informação ou indexação de documentos, tornaria a venda mais complexa.
Os cinco serviços por trás do termo
Friol propõe substituir a expressão genérica por cinco descrições mais precisas: configurar a inteligência artificial, personalizar a linguagem das respostas, especializar a atuação em um domínio de conhecimento, fornecer uma base de conhecimento conectada aos documentos da empresa, e criar um assistente especializado que reúne os itens anteriores.
Cada um desses serviços demanda esforço distinto, segundo o executivo. A configuração pode levar meses. Já a conexão de uma base de conhecimento corporativa, com tratamento de documentos e definição de permissões de acesso, corresponde a um projeto de engenharia com prazo e custo próprios.
O custo da imprecisão
De acordo com Friol, a falta de clareza no vocabulário gera três tipos de custo: a dificuldade de comparar propostas, a criação de expectativas equivocadas sobre o funcionamento do sistema, e o adiamento de novos projetos quando o resultado entregue fica abaixo do esperado.
Como avaliar uma proposta
O especialista recomenda três perguntas para qualquer proposta que utilize o verbo "treinar": quais dados da empresa serão acessados e como serão tratados; o que precisa ser ajustado quando a resposta estiver incorreta e quem é responsável por esse ajuste; e o que pode ser levado para outro fornecedor em uma eventual troca.
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Segundo Friol, as respostas costumam esclarecer rapidamente qual dos cinco serviços está sendo, de fato, oferecido.
