Pouca gente sabe que a contabilidade brasileira é uma das profissões mais digitalizadas do país, mesmo sem ter sido uma escolha do setor. Com a criação do SPED (Sistema Público de Escrituração Digital), em 2007, surgiram várias camadas de fiscalização eletrônica: nota fiscal eletrônica, escrituração contábil digital, eSocial, cruzamentos automatizados de dados. O Estado anunciou cada uma delas como simplificação, mas a verdade é que são mais informação a processar. Nesse percurso, o contador se torna o operador de uma das estruturas de conformidade eletrônica mais sólidas do mundo, uma realidade que se une às particularidades de quem atua em Minas Gerais.
Um novo capítulo começou em 2026 com a fase de testes da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços). Esse é o início da transição da reforma tributária, da consolidação da padronização nacional da nota de serviço, e do cruzamento maior de informações no processo de fiscalização, processo que ocorre em velocidade impossível de ser acompanhado por equipes humanas. Simultaneamente, os escritórios passaram a adotar de forma concreta a automação fiscal e a inteligência artificial. Nesse encontro entre as duas transformações surge o seguinte questionamento: qual o papel do contador daqui para frente.
Uma década que automatizou a rotina
Essa mudança pode ser compreendida ao observar os números mais recentes do setor. O Retrato do Mercado Contábil Brasileiro 2026, estudo da Connectabil em parceria com a RDD, ouviu 644 escritórios e constatou que 79% já utilizam a inteligência artificial generativa nas atividades diárias, o que demonstra o uso crescente da tecnologia. O desafio surge ao se constatar que 67% dos escritórios ainda não monitoram indicadores formais de produtividade. Ou seja, o ganho promovido pela tecnologia limita-se às operações que eram medidas e organizadas antes da automação.
O retrato que aparece é simples: um setor que digitalizou a execução de suas atividades sem reavaliar o modelo de trabalho. A tecnologia tomou conta do operacional, parte em que o resultado é mais perceptível. No entanto, não impactou a relação entre contador e cliente, local que define, de fato, o que está sendo contratado. Esse movimento já foi percebido pelas entidades profissionais: em abril de 2026, o Conselho Federal de Contabilidade, a Fenacon e a IOB lançaram a primeira pesquisa nacional oficial sobre uso de IA nos escritórios contábeis. Isso deixa evidente que o tema não é mais uma novidade passageira, mas sim uma questão de formação profissional.
O que continua sendo trabalho humano
O trabalho humano continua recaindo sobre as atividades mais difíceis de padronizar. A conformidade fiscal, que era o centro do serviço contábil durante décadas, agora é a base da relação, sendo realizada por sistemas que recebem supervisão humana. Cabe ao contador atuar na camada seguinte: compreender o contexto particular de cada empresa, saber quais são os impactos positivos ou negativos de uma mudança de porte, de regime ou de legislação, e tomar decisões a partir disso. Essa camada é chamada de decisão tributária e requer julgamento aplicado a um caso concreto, em vez de regra aplicada a um grande volume de dados. Essa característica é o que a distancia da automação.
"O compliance virou o ingresso do jogo, não o jogo. O cliente assume que a obrigação vai ser entregue certa, do mesmo jeito que assume que a luz vai acender. O que ele passou a perguntar é o que a empresa dele está deixando na mesa, e essa resposta não sai da automação, sai de análise", afirma Carlos Gago, CEO da Trinity Consultoria Tributária.
O deslocamento do valor, que sai da execução e vai para o aconselhamento, acontece na contabilidade e em qualquer outra profissão técnica alcançada pela tecnologia. A diferença no Brasil está na escala do que é possível aconselhar. A complexidade do sistema tributário nacional e a transição da reforma, que faz com que o modelo antigo e o novo passem por anos de convivência, reabre o debate sobre enquadramentos, bases de cálculo e créditos tributários de quase todas as empresas em funcionamento, inclusive as milhares de empresas mineiras que hoje sustentam a economia regional. A camada estratégica, portanto, tem cada vez mais assunto, enquanto a rotina fica em segundo plano.
Compliance como base, estratégia como novo horizonte
O papel do novo contador, agora, é usar a conformidade como base de sustentação de outra função. Na camada estratégica, é preciso aconselhar bem, o que exige profundidade, algo que se constrói ao longo do tempo. A revisão de créditos tributários, a construção de uma tese e o acompanhamento da jurisprudência, que muda a cada sessão dos tribunais superiores, ultrapassam a rotina de um escritório e podem comprometer as entregas diárias. Ao mesmo tempo, não se justifica ter uma estrutura interna com essa finalidade para quem não tem demanda constante nessa frente.
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O novo modelo se completa nesse ponto. Cabe ao contador saber orquestrar essas frentes, em vez de dominá-las sozinho. Ele permanece como o ponto decisório da relação, o profissional que conhece a empresa, compreende os sinais e define quando buscar apoio técnico especializado. A consultoria externa é complementar e assume o risco da execução com método e dedicação integral. Para o cliente, é a oportunidade de ganhar o que nenhuma das partes entregaria sozinha. Para o contador, é a consolidação do papel que a tecnologia valoriza: o de quem decide.
