SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Nos últimos dias, a internet foi tomada por protestos pedindo justiça pelo cão Orelha, morto de forma violenta na Praia Brava, em Florianópolis (SC). A Polícia Civil pediu a internação de um adolescente apontado como autor da agressão.
Mesmo pais e responsáveis que repudiam atos de violência contra animais podem ficar na dúvida sobre como agir quando percebem que um filho está envolvido numa situação assim. Negar o problema pode levar a uma escalada das ações, o que também pode acontecer se as punições forem desproporcionais, dizem especialistas ouvidos pela reportagem.
Nessa faixa etária, o cérebro ainda está em processo de desenvolvimento e maturação, explica o psiquiatra da infância e da adolescência Arthur Caye. Ele diz que existem sistemas de recompensa, emoção e busca de aprovação que são muito ativados, além de as áreas do cérebro que envolvem controle inibitório e avaliação das consequências futuras não estarem amadurecidas. Dessa forma, a sociedade e a família têm responsabilidade e poder de influência sobre o menor de idade.
Padrões morais
O que pode acontecer com pais e responsáveis, até por uma tentativa de autodefesa, é o desengajamento moral, ou seja, dissociar os padrões morais para minimizar atos antiéticos e cruéis sem sentir culpa ou remorso. É nesse contexto que são ditas frases como "não foi nada demais" ou "foi só uma brincadeira".
"Quando você tem um grupo que faz algo por aprovação, existe esse mecanismo de desengajamento moral operando. E, no on-line, existem grupos em que há desengajamento moral de praticamente qualquer coisa", diz o psiquiatra em relação a jovens que cometem violência contra animais, influenciados por outros jovens, e exibem as imagens na internet.
A psicóloga e gestalt-terapeuta Adriana Maximina concorda que é preciso olhar para o ambiente em que essa criança ou adolescente está inserido: tanto na família, quanto na sociedade e na escola. Para ela, a forma como essa pessoa se relaciona com o seu ambiente e as pessoas com quem convive importa mais do que olhar só para um ato isolado.
Sintomas
Assim, é possível perceber quando o adolescente está tendo comportamentos que indiquem atos violentos. Mudanças bruscas de atitude, uso de substâncias, isolamento e impulsividade, principalmente quando apresentados repetidamente, são sinais de que algo está "fugindo do normal", diz.
Um fato isolado pode indicar desinformação, expressão de um sofrimento ou pressão por pares, e não necessariamente crueldade. Agora, quando se torna um padrão, ou seja, um ato constante, indica um alerta.
Caye orienta aos pais a se atentarem à repetição e ao escalonamento da violência, além da capacidade da criança e do adolescente de sentir empatia e remorso. O contexto em que o ato aconteceu também é um ponto de atenção, se o filho agia sozinho ou se pode ser influenciado por colegas.
Como agir com os filhos nesses casos
O primeiro ponto, segundo os especialistas, é avaliar os riscos e a situação de segurança nos casos em que o ato é visto em flagrante. Para Maximina, interromper e advertir no momento garante tanto a segurança da vítima quanto a do que está agredindo.
A conversa franca é o que deve vir em seguida, diz o psiquiatra. Ele orienta dizer exatamente o que se sabe e tentar entender o ponto de vista daquele adolescente, sem fazer com que vire uma situação vexatória.
"Os pais podem ter afeto com o filho e, ao mesmo tempo, não tratar o fato de uma forma leviana, mostrando que o assunto é sério", afirma.
"A responsabilização é diferente de humilhação. E tem que ser proporcional e conectada ao que aconteceu." Outro ponto que o profissional traz é o do monitoramento digital, com conversas sobre o limite da privacidade, que é proporcional à confiança construída pelo filho.
O limite, diz a psicóloga, vem acompanhado da presença e reflexão dos responsáveis que, neste momento, devem sustentar a postura de adultos. "É preciso ter firmeza, dizer que isso não é aceito, que 'eu vou ficar aqui com você, mas o que você fez vai ter consequência'", diz.
Ela afirma que se a postura do responsável for a de minimizar aquele comportamento, colocar "panos quentes", na tentativa de superproteger o filho, pode fazer com que a situação piore exponencialmente.
Como lidar com a vergonha e o sentimento de culpa
Maximina diz que pode ser difícil para os pais admitirem seus próprios sentimentos diante de uma situação assim. "É muito doloroso para alguns pais perceber isso também, então a gente tende a negar."
Esses sentimentos desagradáveis, assim como a vergonha e a culpa, têm uma função, explica Caye, até para compreender se realmente há alguma responsabilidade envolvida, o que se deixou de fazer e que deve ser remediado agora.
Para ele, é preciso não se deixar paralisar e ter muita clareza e usar esses sentimentos como um "combustível para criar um filho melhor". A desconfiança que pode surgir em relação àquele adolescente também é possível ser reconstruída, diz, e deve ser explicitada para o filho para justificar as medidas de monitoramento.
"Não confiar não pode ser confundido com não amar ou julgar", diz, complementando que fazer acordos com o adolescente é muito importante até para reconquistar a confiança. Maximina concorda ao dizer que ensinar limites é uma forma de dar amor.
Quando buscar ajuda profissional
Se a criança ou adolescente estiverem envolvidos em alguma situação de violência, especialmente se o padrão se repetir, cabe buscar uma avaliação profissional, dizem os especialistas.
A psicóloga diz que quanto antes a família buscar ajuda, melhor. Porque se a dinâmica não for organizada, reparada e ajustada, tende a se tornar mais grave. Mas esse tratamento não deve ser feito de forma isolada, e sim em conjunto com os pais. "Porque todo o processo de mudança da criança, do adolescente, depende da participação dos pais", afirma.
Caye diz que uma das intervenções indicadas em casos de condutas desse tipo é a terapia familiar sistêmica, que engaja a família e ensina como criar essas contingências dentro de casa.
O papel da escola nesses casos
Caye entende que um dos papéis da escola é com a formação, já que nem todas as famílias têm as mesmas condições de oferecer a mesma educação sobre diversas questões, inclusive morais. Como as crianças e adolescentes passam a maior parte do tempo no ambiente escolar, ele diz que a instituição pode ser inclusive um mecanismo de monitoramento e proporcionar uma atuação conjunta entre as famílias e também entre diferentes escolas.
Maximina reforça que não se deve deixar apenas sob responsabilidade das escolas, mas que os pais também precisam participar desse processo, orientando em relação à inclusão, cooperação e ensinando sobre as relações.
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"O que a escola não deve fazer é virar um tribunal público, um lugar de humilhação, de assembleia ou de punições desenfreadas", diz Caye.
