A avaliação das trompas é uma etapa clássica da investigação de infertilidade feminina e, no Brasil, ainda costuma ser feita pela histerossalpingografia, exame de raio X que utiliza contraste iodado. Uma alternativa em expansão é a histerossonossalpingografia, conhecida pela sigla HyCoSy, que verifica a permeabilidade tubária por ultrassom, sem radiação ionizante e sem contraste iodado, e ainda permite analisar útero e ovários na mesma sessão.

Segundo a Dra. Camila Gomes Bruns, médica ginecologista, com atuação em ultrassonografia ginecológica, investigação de infertilidade e mapeamento de endometriose, o exame “verifica se as trompas estão abertas, ou seja, se existe caminho livre para o encontro entre o óvulo e o espermatozoide e para a chegada do embrião ao útero”. Para isso, um cateter fino é posicionado dentro do útero e um contraste à base de microbolhas ou de espuma é injetado lentamente, enquanto a imagem é acompanhada em tempo real.

A médica destaca que a abrangência é o principal diferencial do método. “Em uma investigação de infertilidade, isso significa reunir em um único exame informações que costumam vir de exames diferentes, em dias e locais diferentes”, afirma. Na mesma avaliação, é possível observar o endométrio, a presença de miomas ou pólipos, os ovários, a contagem de folículos e sinais sugestivos de endometriose.

Preparo e realização

O procedimento costuma ser agendado na primeira metade do ciclo menstrual, após o fim da menstruação e antes da ovulação. Conforme a especialista, essa janela reduz a chance de coincidir com uma gestação muito inicial e oferece melhores condições de interpretação. Em geral, orienta-se o uso de anti-inflamatório ou analgésico cerca de uma hora antes, quando permitido, e o antibiótico fica restrito a situações específicas, como alteração tubária já conhecida ou histórico de doença inflamatória pélvica.

A sessão começa com um ultrassom transvaginal convencional, seguido da colocação do espéculo, do posicionamento do cateter e da injeção do contraste. “O procedimento leva, em média, de 20 a 40 minutos, e o resultado costuma ser informado logo ao final”, explica a ginecologista. De acordo com ela, a maior parte das pacientes relata sensação parecida com cólica menstrual, que tende a ser passageira.

Para quem o exame é indicado

A indicação mais frequente é a dificuldade para engravidar, com investigação iniciada, em geral, após 12 meses de tentativas, ou antes disso em casos como idade acima de 35 anos. Histórico de infecção pélvica ou por clamídia, cirurgias abdominais, gravidez ectópica anterior, endometriose e o planejamento de reprodução assistida também levam à solicitação.

“Vale um esclarecimento importante: a obstrução tubária costuma ser silenciosa. Muitas pacientes não têm sintoma nenhum, e a única manifestação é justamente a dificuldade para engravidar”, alerta a Dra. Camila Gomes Bruns.

Diferenças em relação ao raio X

Além da ausência de radiação, a médica aponta menor desconforto, realização em consultório e avaliação mais ampla da pelve. “Em estudos que compararam os dois exames, a dor relatada foi menor com o ultrassom: em uma escala de zero a dez, a mediana ficou em torno de dois para a HyCoSy e cinco para a histerossalpingografia”, informa.

A especialista pondera, porém, que um método não substitui o outro de forma automática. Um estudo randomizado publicado em 2022 na revista Human Reproduction, com 1.160 mulheres em 26 hospitais, registrou taxas equivalentes de nascidos vivos em 12 meses: 46% e 47%.

“Ou seja, são caminhos comparáveis, e a escolha depende do caso, da disponibilidade e da experiência de quem realiza”, avalia. A diretriz europeia de infertilidade sem causa aparente, atualizada em 2023 pela Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), recomenda as duas técnicas como testes de permeabilidade tubária, no lugar da laparoscopia.

Cuidados e interpretação do resultado

Após o exame, são esperadas cólica leve e pequeno sangramento por algumas horas, e a maioria das pacientes retoma as atividades no mesmo dia. Febre, dor pélvica intensa e progressiva, corrimento com odor forte ou sangramento persistente pedem retorno ao serviço.

A ginecologista ressalta que um resultado sugestivo de obstrução deve ser interpretado com cautela. “A trompa pode se contrair temporariamente durante o exame, o chamado espasmo tubário, e simular um bloqueio que não existe”, frisa. Ela acrescenta que uma única trompa permeável não inviabiliza, por si só, a tentativa de gravidez espontânea, e que trompa aberta não significa necessariamente trompa funcionante, razão pela qual o laudo é sempre lido em conjunto com a história clínica e os demais exames.

Com mais opções disponíveis para investigar a saúde tubária, a definição do exame mais adequado passa por uma avaliação individual, que considera histórico, anatomia e objetivos reprodutivos de cada paciente. Na visão da Dra. Camila Gomes Bruns, conhecer o funcionamento, o preparo e os limites de cada técnica contribui para que a mulher chegue ao procedimento mais segura e compreenda melhor o que o resultado representa dentro do seu processo de investigação.

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