Mais da metade dos empreendedores brasileiros de pequeno porte já incorporaram a inteligência artificial (IA) à rotina de trabalho. A pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Transformação Digital nos Pequenos Negócios, divulgada em 17 de agosto de 2026, aponta que 52% desse público usou ferramentas de IA nas duas semanas anteriores à entrevista. Na medição equivalente feita nos Estados Unidos pelo U.S. Census Bureau, o índice foi de 21%. A intenção de ampliar o uso segue a mesma distância: 60% dos brasileiros pretendem adotar ou expandir a tecnologia no semestre seguinte, contra 24% dos norte-americanos.

O estudo ouviu 7.182 microempreendedores individuais (MEIs), microempresas e empresas de pequeno porte entre 24 de março e 8 de maio. Entre quem já utiliza a tecnologia, a aplicação predominante foi aprimorar tarefas que os colaboradores já executavam (28%), seguida da criação de novas funções (19%). Em 90% dos negócios que adotaram IA, o quadro de funcionários permaneceu inalterado nos seis meses anteriores. Entre os empresários que não pretendem usar a ferramenta, 38% atribuem a decisão à falta de conhecimento sobre o que ela é capaz de fazer.

O movimento coincide com a expansão dos formatos autônomos de trabalho no país. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil somava 26,1 milhões de trabalhadores por conta própria em 2025, alta de 30,4% frente a 2012.

É nesse cruzamento entre tecnologia acessível e diversificação de vínculos que se posiciona a Travessia, criada por três executivos com mais de 20 anos de trajetória cada um: Jacqueline Brizida, em recursos humanos; Igor Baliberdin, em design; e Janaína Truzzi, em marketing. A Iniciativa oferece workshops de criação e gerenciamento de agentes de IA, curadoria de ferramentas e metodologia própria de aplicação da tecnologia ao cotidiano profissional.

Experiência acumulada com atitude empreendedora

Para Jacqueline Brizida, idealizadora da Travessia, o aumento do poder de execução trazido pela tecnologia ainda não se converteu em mudança de mentalidade. Ela avalia que a maioria dos profissionais procura entender como a IA pode ajudar a manter o emprego e o plano de carreira vigente, em lugar de explorar possibilidades inéditas.

“Pelo que eu vejo, a IA não necessariamente desperta por si só o interesse pelo empreendedorismo ou atuação em formato autônomo nas pessoas”, afirma. “Para mim, a IA, bem utilizada, pode ser excelente para ajudar a blindar ótimos profissionais contra o desemprego ou a falta de oportunidades de trabalho”, completa.

A Idealizadora acrescenta que desenvolver atitude empreendedora não implica abrir um negócio próprio. Esse comportamento também pode ser exercido dentro das organizações, no que descreve como intraempreendedorismo: “a capacidade de perceber oportunidades, propor soluções de forma inovadora e articular formas de viabilizar novos produtos, soluções e oportunidades de negócio dentro das empresas”.

Escala para testar hipóteses

Na frente de desenvolvimento de soluções, Igor Baliberdin, também Idealizador da iniciativa, descreve ganho de velocidade na investigação de problemas. “A inteligência artificial trouxe escala e velocidade para investigar problemas, formular hipóteses e testar caminhos possíveis. O que antes exigia equipes maiores, mais tempo e investimentos significativos, hoje pode ser explorado com uma estrutura muito mais enxuta”, diz. Para ele, o efeito é a democratização de capacidades até pouco tempo concentradas em grandes empresas.

A contrapartida está no rigor exigido de operações reduzidas. “Aprendi que estruturas mais enxutas aumentam a capacidade de decidir, experimentar e mudar de direção rapidamente. Existe menos burocracia, mas também menos margem para desperdiçar recursos”, observa. Por esse motivo, avalia o designer: “testar, iterar e validar antes de investir pesado se torna fundamental”.

Aprendizado contínuo e trabalho em rede

O terceiro eixo da discussão está na atualização permanente de competências. Relatório do Fórum Econômico Mundial estima que 39% das habilidades exigidas dos trabalhadores serão transformadas ou se tornarão obsoletas até 2030. Para Janaína Truzzi, também Idealizadora da Travessia, o cenário coloca o estudo contínuo no centro da discussão. “A meu ver, a postura de aprendiz, a curiosidade e o conceito de ‘lifelong learning’ nunca foram tão tangíveis e necessários. Acredito que essa tríade seja a única forma de atravessarmos este momento”, acentua.

A executiva associa a decisão de reunir as três trajetórias em uma iniciativa conjunta ao isolamento que costuma acompanhar quem empreende ou lidera. “Empreender (assim como liderar) costuma ser uma jornada solitária”, diz. Estimativas do relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre conexão social indicam que uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão. O grupo passou a se encontrar para “trocar ansiedades, angústias, dilemas e inquietações”, relata, até decidir dividir o percurso com outros profissionais.

O conjunto dos indicadores sugere que a difusão da IA no país avança mais rápido do que a formação de repertório para utilizá-la, lacuna identificada pelo Sebrae como principal obstáculo entre quem ainda não adotou a tecnologia. A proposta da Travessia parte da leitura de que a soma entre experiência acumulada e domínio de ferramentas acessíveis amplia as alternativas de atuação de profissionais seniores, dentro ou fora das grandes estruturas.

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