Mais de 60% da população brasileira convive com excesso de peso, segundo levantamento divulgado pela Agência Brasil. Diante desse quadro, cresce a procura por tratamentos voltados ao emagrecimento, embora a resposta clínica varie entre pessoas submetidas à mesma abordagem. Duas pessoas com peso idêntico e rotina parecida podem alcançar resultados diferentes, situação associada à individualidade metabólica, conceito que reúne características hormonais, genéticas, comportamentais e de composição corporal.

O médico Sebastião Viana Júnior, que atende em Campina Grande (PB) e em São Paulo (SP) nas áreas de emagrecimento avançado, saúde metabólica e performance, observa que o número da balança não descreve a complexidade do organismo. Dois pacientes podem pesar 90 quilos e apresentar composições corporais distintas, com variações na quantidade de massa muscular, no percentual de gordura visceral, na qualidade do sono e na sensibilidade à insulina.

“Nós não tratamos um número na balança. Tratamos uma pessoa. E pessoas aparentemente semelhantes podem ter metabolismos completamente diferentes”, afirma o nutrólogo.

Uma doença de múltiplos fatores

A obesidade é classificada como doença multifatorial, o que exige avaliação além da contagem de calorias. Distribuição da gordura corporal, gasto energético, estresse e comportamento alimentar interferem no desfecho do tratamento. No campo hormonal, alterações do eixo tireoidiano e deficiências clinicamente relevantes também modificam composição corporal, disposição, força e capacidade de aderir ao protocolo, conforme o especialista.

Há ainda o componente genético. Variantes ligadas ao controle da fome e da saciedade, ao metabolismo energético e à predisposição ao ganho de peso ajudam a explicar por que parte dos pacientes enfrenta maior dificuldade para perder ou manter peso, tema tratado em publicação da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). O profissional pondera que esse dado tem alcance limitado quando analisado isoladamente.

“Genética não é sentença. Ela é uma informação a mais dentro de uma avaliação clínica completa. O tratamento não deve ser construído a partir de um exame isolado”, pontua Dr. Sebastião Viana.

Platô e reganho de peso

Interpretar a estagnação da perda de peso apenas como falta de disciplina é uma leitura simplista, avalia o médico. Quando há redução do peso corporal, o organismo responde: o gasto energético pode diminuir, a fome tende a aumentar e mecanismos biológicos passam a favorecer a recuperação do peso perdido, em resposta adaptativa. “Nesses momentos, a investigação percorre adesão, alimentação, sono, treinamento, composição corporal, dose e resposta ao medicamento, além das condições hormonais capazes de interferir naquele período”, detalha.

“O platô não significa necessariamente que o tratamento falhou. Muitas vezes, significa que o tratamento precisa evoluir junto com o paciente”, acrescenta o médico.

Avaliação metabólica e desenho do protocolo

A avaliação metabólica aprofundada combina história clínica, exame físico, análise da composição corporal e exames laboratoriais direcionados. “Não existe um exame único capaz de traduzir o metabolismo, e sim a integração de dados sobre metabolismo glicêmico, perfil lipídico, função hepática e tireoidiana, deficiências nutricionais, massa muscular e gordura visceral. Testes genéticos acrescentam elementos em situações selecionadas, desde que interpretados dentro do contexto de cada paciente”, defende.

“Exame sem contexto é apenas um resultado. O que muda o tratamento é saber interpretar esse resultado dentro da história daquele paciente”, diz o médico.

Esse conjunto ajuda a responder onde o paciente está, o que dificulta seu resultado e o que precisa ser corrigido. A partir daí, definem-se a estratégia alimentar, o treinamento, a necessidade de preservar massa muscular, a correção de deficiências e, quando existe indicação, a terapia farmacológica mais adequada. Individualizar, segundo o nutrólogo, não significa solicitar mais exames nem ampliar o número de medicamentos, mas empregar o que faz sentido para determinado paciente naquele momento.

“Tratamento personalizado não é entregar um protocolo diferente para cada pessoa. É entender por que ele precisa ser diferente”, completa.

O lugar da terapia injetável

Entre as opções farmacológicas, a tirzepatida atua nos receptores de GIP e GLP-1 e melhora mecanismos ligados à saciedade, à ingestão alimentar e ao controle metabólico, com perdas de peso expressivas quando existe indicação adequada. O especialista sustenta, contudo, que a medicação não substitui avaliação clínica, alimentação equilibrada, exercício, sono e acompanhamento continuado, sempre sob prescrição e supervisão médica.

“Existe uma diferença enorme entre perder peso e tratar obesidade”, percebe. “O protagonista precisa ser o paciente. A tirzepatida é uma ferramenta dentro de uma estratégia maior”.

Por ser doença crônica e com elevada tendência à recorrência, a obesidade demanda planejamento de longo prazo, sob risco de reganho de peso quando o cuidado se apoia apenas na aplicação de um medicamento. “O futuro do tratamento da obesidade não está simplesmente em termos de medicamentos cada vez mais potentes. Está em conseguirmos utilizar essas ferramentas no paciente certo, no momento certo e dentro de um acompanhamento verdadeiramente individualizado e sustentável”, finaliza o médico.

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