O varejo óptico brasileiro fechou o primeiro trimestre de 2026 com faturamento de R$ 7,338 bilhões, alta de 3% sobre o mesmo período de 2025, segundo a Associação Brasileira da Indústria Óptica (Abióptica). Março puxou a aceleração do trimestre, com vendas de R$ 2,45 bilhões, valor 7% superior ao registrado em março do ano anterior. A entidade projeta crescimento de 5,2% para o setor no ano e identifica uma reorientação estratégica entre as empresas: a busca por aumento de volume cede espaço para uma lógica de margem, mix e captura de valor.
O comportamento do mercado no primeiro trimestre confirma um cenário de crescimento moderado, porém consistente, sustentado pela resiliência do consumo, pelo fortalecimento das vendas premium e pela maior profissionalização do varejo óptico, conforme análise de Ambra Nobre Sinkoc, diretora-executiva da Abióptica. Mesmo diante de um ambiente econômico marcado por juros elevados e consumo cauteloso, o setor mantém estabilidade acima das projeções médias da economia nacional, indica a executiva.
Para a diretora-executiva, 2026 será um período de ajuste estratégico para as empresas do setor. “Os planejadores precisam estar preparados para ajustar o rumo, deixando objetivos focados apenas em aumento de volume e direcionando suas estratégias para maior atenção à margem, ao mix e à captura de valor”, afirma a executiva, em comunicado da entidade. Sinkoc descreve o movimento como uma busca por crescimento com qualidade, sustentado por diferenciação, experiência de compra, tecnologia e posicionamento de marca.
A mudança de mentalidade gerencial é avaliada como inevitável diante de um consumidor mais informado e com maior poder de comparação. Para Rafael Barros, CEO e fundador do ssOtica, plataforma de tecnologia para o setor óptico, o desafio central das óticas será elevar a percepção de valor na venda, com avanço em qualidade e rentabilidade. “As óticas precisarão vender melhor, com foco em margem, mix de produtos e gestão apoiada por tecnologia para garantir a perenidade do negócio no longo prazo”, avalia Barros.
Sinais dessa virada já aparecem no comportamento dos próprios lojistas. Monitoramento interno do ssOtica, que atende mais de 7,4 mil óticas no Brasil, identifica que a parcela da base com ferramentas analíticas ativadas passou de 1,96% em outubro de 2025 para 11,56% em abril de 2026. A escala ainda minoritária da adoção convive com curva de crescimento acelerado, em movimento que sugere busca crescente por instrumentos de leitura de margem, giro e mix por parte de gestores do varejo óptico.
Na ponta da operação, a transição esbarra na maturidade gerencial das lojas. Raphael Silva, diretor de receitas da companhia, identifica três perfis convivendo no varejo brasileiro: redes consolidadas que já operam com inteligência de negócio estruturada e acompanhamento de margem por categoria, ainda em fatia minoritária; óticas independentes em modelo híbrido, que usam o sistema para registrar vendas mas tomam decisões comerciais com base em percepção; e um terceiro grupo, considerável, que opera no modelo de caixa cheio e caixa vazio, sem separação clara entre lucro e faturamento.
Segundo Silva, muitos gestores conhecem o faturamento do mês, mas têm dificuldade de responder com precisão qual armação dá mais margem, qual fornecedor tem o melhor giro ou qual faixa de ticket médio é mais rentável depois de descontados custos de aquisição e prazos de recebimento. “As óticas que estão saindo da gestão por sensação para a gestão por indicador são justamente as que crescem de forma mais consistente. O risco para quem não embarcar nessa transformação já não é teórico, está visível na curva de margem”, acentua.
A sustentação do crescimento de 5,2% projetado pela Abióptica para 2026 tende a depender menos da expansão quantitativa de vendas e mais da capacidade de óticas independentes e redes regionais incorporarem práticas associadas à diferenciação, à experiência de compra e ao uso de tecnologia em sua gestão cotidiana. O movimento acompanha a tendência mais ampla do varejo brasileiro, pressionado por consumidor cauteloso e juros elevados, ambiente que tende a premiar operações com maior controle de margem e melhor mix de produtos.
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O ssOtica é uma plataforma de tecnologia voltada para o setor óptico brasileiro, desenvolvida pela Ipê Digital.
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