O aumento da longevidade no Brasil altera a lógica das carreiras e cria um novo ponto de atenção para empresas: o custo real de sustentar a permanência feminina em posições de liderança ao longo de trajetórias mais longas. Mulheres vivem mais, permanecem mais tempo economicamente ativas e concentram simultaneamente responsabilidades financeiras com diferentes gerações da família, fenômeno conhecido como geração sanduíche. Nesse contexto, a equidade deixa de ser apenas uma pauta reputacional e passa a impactar indicadores de produtividade, sucessão e retenção de conhecimento.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que as mulheres têm maior nível médio de escolaridade e maior expectativa de vida que os homens, mas seguem sub-representadas nos cargos de alta liderança e recebem salários menores em posições equivalentes. Paralelamente, o Colégio Notarial do Brasil registra crescimento dos chamados divórcios grisalhos, ampliando a necessidade de reorganização financeira na maturidade, especialmente entre aquelas que tiveram menor acesso histórico à educação financeira.

Esse cenário ocorre enquanto estudos da KPMG e da Harvard Business Review indicam que mais de 70% das executivas relatam já ter vivenciado a síndrome da impostora. A experiência aumenta, mas a percepção de legitimidade não acompanha o mesmo ritmo em ambientes que ainda associam liderança à disponibilidade irrestrita, à linearidade de carreira e a padrões etários e estéticos.

Os efeitos desse desalinhamento aparecem nos custos invisíveis para as organizações: maior risco de burnout, saída precoce de lideranças seniores, perda de capital intelectual, redução da diversidade nos pipelines de sucessão e aumento do turnover em posições estratégicas.

“A permanência da mulher na liderança ao longo de uma vida mais longa deixou de ser pauta de diversidade e passou a ser variável de sustentabilidade corporativa”, afirma a especialista em diversidade etária e longevidade corporativa Fran Winandy.

Estudos internacionais sobre diversidade indicam que organizações que combinam múltiplos pilares — como gênero, idade e raça — apresentam maior capacidade de inovação, melhor qualidade na tomada de decisão e desempenho financeiro superior. Relatório da McKinsey aponta que empresas com diversidade de gênero e étnico-racial acima da média têm até 25% mais probabilidade de superar a rentabilidade de seus pares, enquanto pesquisas sobre integração geracional mostram impacto positivo na transferência de conhecimento crítico e na produtividade de equipes.

A ampliação da expectativa de vida e o crescimento dos divórcios após os 50 anos reposicionam o papel das mulheres nas organizações e transformam a permanência na liderança em um tema econômico, de governança e de gestão de pessoas. Evidências internacionais mostram que esse movimento está diretamente ligado à geração de valor: levantamento do Peterson Institute for International Economics com cerca de 22 mil empresas em 91 países identificou que organizações com maior presença feminina na alta gestão tendem a apresentar maior rentabilidade, enquanto estudos conduzidos por Cristian Dezs?, da Harvard Business School, publicados no Strategic Management Journal, indicam que a participação de mulheres no topo está associada a melhor desempenho, especialmente em estratégias orientadas à inovação.

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Em um país que envelhece rapidamente, reter lideranças femininas ao longo de carreiras mais extensas deixa de ser apenas uma pauta de equidade e passa a representar um indicador concreto de maturidade organizacional, resiliência econômica e capacidade de sustentar crescimento em ciclos mais longos, um desafio que coloca, no Mês da Mulher, a criação de condições reais para trajetórias profissionais mais duradouras no centro da agenda das empresas.



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