A expansão das facções criminosas no Haiti transformou bairros inteiros em territórios de violência, onde crianças enfrentam tiroteios, ameaças e recrutamento forçado. Em Porto Príncipe e outras regiões, a presença de grupos armados provoca deslocamentos, interrompe as aulas e compromete o atendimento médico.
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o recrutamento e a utilização de crianças por grupos armados aumentaram cerca de 200% em 2025, triplicando em relação ao ano anterior. Meninos e meninas são utilizados em atividades de vigilância, transporte de materiais e outras tarefas impostas pelas organizações criminosas.
A gravidade da situação aparece nos registros da ONU. Em 2025, foram verificadas 2.088 violações graves contra 1.661 crianças, incluindo 892 casos de recrutamento e utilização de menores por grupos armados.
A violência também obriga famílias a abandonar suas casas. Em junho de 2026, aproximadamente 1,5 milhão de pessoas estavam deslocadas internamente, cerca da metade crianças. A insegurança impede o funcionamento regular de escolas e unidades de saúde.
Durante o ano letivo de 2024 e 2025, mais de 1.600 escolas foram fechadas, prejudicando a educação de mais de 240 mil estudantes.
O UNICEF alerta que a separação familiar, a pobreza e a interrupção das aulas aumentam a vulnerabilidade ao recrutamento e à exploração. A resposta humanitária inclui proteção infantil, acolhimento, reunificação familiar e apoio psicológico.
Sem segurança e serviços públicos, crianças haitianas continuam expostas à violência de grupos que disputam o controle de comunidades.
No Haiti, a infância também foi obrigada a fugir. Em Porto Príncipe, crianças crescem entre barracas improvisadas e escolas transformadas em abrigos, enquanto a violência das gangues expulsa famílias de suas casas. Onde antes havia salas de aula, agora há colchões, medo e incerteza. Algumas crianças sequer conheceram a paz; outras são recrutadas por grupos armados antes de aprender o significado da liberdade. Em um país onde até brincar se tornou um risco, sobreviver ocupa o lugar dos sonhos.
“Se eu não fosse corajosa, não estaria aqui”
Ania, de 15 anos, sofreu violência sexual ao sair para buscar água e tornou-se uma das milhares de crianças atingidas pelas facções haitianas
Ania tinha 15 anos quando contou sua história ao UNICEF, em um depoimento divulgado pela AFP, em outubro de 2025. A adolescente estava entre as centenas de milhares de crianças obrigadas a deixar suas casas por causa da violência das facções no Haiti.
Uma atividade cotidiana, buscar água, transformou-se em uma experiência traumática. Ania foi agredida e violentada sexualmente por vários homens.
“Muita coisa aconteceu na minha vida. Se eu não fosse corajosa, não estaria aqui”, relatou a adolescente, cuja identidade foi protegida por meio de um nome fictício.
Seu depoimento revela como as crianças se tornaram vítimas diretas de graves violações em um país onde grupos criminosos controlam comunidades e restringem a circulação dos moradores.
Para meninas como Ania, tarefas básicas podem representar riscos. A necessidade de sair de casa para conseguir água ou alimentos aumenta a exposição à violência em áreas onde os serviços públicos deixaram de funcionar regularmente.
menino trabalha na produção de peças artesanais de metal para ajudar a sustentar a família. A pobreza o mantém longe da escola, enquanto suas pequenas mãos transformam sucata em arte
PARA ENTENDER o conflito EUA x irã
1986
Fim da ditadura
A queda de Jean-Claude Duvalier encerra quase três décadas de domínio familiar. O país enfrenta sucessivas crises políticas e institucionais.
2015
Nova crise política
O presidente Jean-Bertrand Aristide deixa o poder em meio a uma rebelião. A ONU estabelece uma missão de estabilização diante da violência e da instabilidade.
2010
Terremoto devastador
Um forte terremoto destrói parte de Porto Príncipe e agrava as fragilidades econômicas e institucionais do país.
2021
Presidente assassinado
Jovenel Moïse é morto em sua residência. A crise política se aprofunda e grupos armados ampliam o controle territorial.
2024
Facções avançam
Uma ofensiva coordenada de grupos criminosos atinge instituições públicas e instalações de segurança. A violência provoca novos
2025
Recrutamento aumenta
O UNICEF estima crescimento de 200% no recrutamento e utilização de crianças por organizações armadas.
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2026
Crise humanitária
O país enfrenta deslocamentos em massa, fechamento de escolas e violência contra menores.
A ONU confirma graves violações dos direitos das crianças.
