O governo da Nicarágua mantém pelo menos 30 pessoas em "desaparecimento forçado", uma arma que utiliza para "esmagar" a oposição, denunciou nesta terça-feira (22) um grupo de especialistas em direitos humanos da ONU.
O presidente Daniel Ortega, um ex-guerrilheiro de esquerda de 80 anos, e sua esposa e copresidente Rosario Murillo, de 75, governam com poder absoluto e controle rígido sobre a sociedade, em particular após os protestos de 2018, que deixaram quase de 300 mortos, segundo a ONU.
Desde então, 161 casos de "desaparecimento forçado" e a morte de oito pessoas detidas por motivos políticos foram registradas, aponta um relatório do Grupo de Especialistas em Direitos Humanos sobre a Nicarágua das Nações Unidas, que considera que o número de desaparecidos pode ser ainda maior.
Pelo menos 29 pessoas continuavam com paradeiro desconhecido até 31 de agosto, segundo o relatório, que afirma que a prática constitui um "crime contra a humanidade".
O que começou como "desaparecimentos de curta duração" para punir os detidos e intimidar seus familiares passou a ser uma "prática estratégica e recorrente de desaparecimentos prolongados, de meses ou anos contra um conjunto cada vez mais diverso de vítimas", acrescentam os especialistas.
Ortega, no poder há quase duas décadas, considera que os protestos de 2018 foram uma tentativa de "golpe de Estado" patrocinado pelos Estados Unidos.
Após a repressão posterior às manifestações, milhares de nicaraguenses partiram para o exílio e a oposição é praticamente nula no país, onde acaba de ser aprovada uma reforma que proíbe a participação de partidos contrários ao governo nas eleições.
O Grupo de Especialistas foi criado em 2022 pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU para investigar as violações e abusos cometidos na Nicarágua a partir de abril de 2018 e identificar seus responsáveis.
No relatório "Anatomia da crueldade estatal", os investigadores denunciam que os desaparecimentos foram executados por meio da atuação coordenada de várias instituições e "uma cadeia de comando que chega até as esferas mais elevadas do governo".
Os desaparecimentos constituem "crimes contra a humanidade" por "encarceramento, tortura, atos desumanos e perseguição por motivos políticos", destacam.
O Grupo pediu ao governo que revele o paradeiro das pessoas desaparecidas, liberte os detidos por motivos políticos e investigue as mortes sob custódia estatal, que incluem a de Humberto Ortega, irmão do presidente, falecido em 2024.
Ortega governou na década de 1980 e voltou ao poder em 2007. Desde então, ele foi reeleito três vezes em votações contestadas.
Nas últimas eleições, há cinco anos, o governo prendeu opositores e a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) venceu com folga, sem adversários.
Em 1º de setembro, a Assembleia Legislativa aprovou uma reforma constitucional que proíbe a participação de opositores nas eleições, a pedido de Ortega, e amplia seu mandato de seis para sete anos.
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