Para compreender como uma guerra relativamente curta em sua fase mais intensa conseguiu produzir uma conta superior a US$ 38 bilhões, é preciso olhar para a dimensão da máquina militar colocada em movimento.

Os Estados Unidos iniciaram a Operation Epic Fury em 28 de fevereiro de 2026, com ataques aéreos e mísseis de cruzeiro contra o Irã, simultaneamente a ataques israelenses.

Segundo o CBO, a fase inicial e mais intensa durou até o cessar-fogo de 8 de abril. Depois disso, os confrontos perderam intensidade, embora não tenham terminado.

Na ofensiva inicial, aproximadamente 250 aeronaves táticas participaram da operação.

Dois grupos de ataque de porta-aviões forneceram cerca de 90 dessas aeronaves. Também participou um grupo anfíbio.

Bombardeiros realizaram missões contra o Irã a partir de outras localidades. Aviões-tanque permaneceram no ar para reabastecer outras aeronaves. Aviões de transporte movimentaram soldados, equipamentos e armamentos. Navios e unidades de defesa aérea, aviação e artilharia do Exército completaram a operação.

Cada hora adicional de funcionamento dessa máquina tem um preço.

O CBO comparou as horas de voo durante a guerra com médias registradas anteriormente em períodos de paz. Considerando somente o que excedeu a atividade normal, chegou a US$ 10,4 bilhões.

A Força Aérea respondeu por US$ 8 bilhões desse valor, somadas as aeronaves táticas, bombardeiros e aviões de apoio. Outros US$ 2,4 bilhões vieram das aeronaves da Marinha.

A guerra também expõe uma característica dos conflitos contemporâneos: armas que custam milhões de dólares são disparadas para destruir outras armas que também podem custar milhões.

Os Estados Unidos utilizaram mísseis Tomahawk e Joint Air-to-Surface Standoff Missiles contra alvos terrestres.

Do outro lado, ataques iranianos com mísseis balísticos e drones levaram os americanos a utilizar Patriot, THAAD, SM-3 e SM-6 para defesa.

Somente a reposição dos interceptadores utilizados foi calculada em US$ 13,1 bilhões.

Outros US$ 7,3 bilhões correspondem aos mísseis de cruzeiro usados contra alvos terrestres.

É por isso que as munições, sozinhas, representam mais da metade dos US$ 38,1 bilhões.

Estados Unidos e Irã chegaram a um cessar-fogo que entrou em vigor em 8 de abril.

A intensidade diminuiu.

Em 10 de julho, porém, depois de uma série de ataques iranianos contra petroleiros que transitavam pelo Estreito de Ormuz, o presidente americano declarou encerrado o cessar-fogo, de acordo com a cronologia apresentada pelo CBO.

Desde então, o conflito permaneceu em nível geralmente inferior ao observado nas primeiras semanas, mas com episódios de intensificação.

Essa oscilação muda radicalmente a conta.

Meses de confrontos esporádicos custam menos. Meses com ataques de grande escala exigem mais voos, mais combustível e, principalmente, mais munições.

Por isso, o CBO trabalha com uma faixa de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões por mês para a continuidade das operações nos níveis analisados.

Uma escalada pode levar a números maiores.

O que os US$ 38 bilhões não mostram

Existe ainda uma parte invisível da guerra. O CBO não atribuiu valor financeiro aos militares americanos mortos ou feridos.

Também não estão incluídos na conta os aumentos futuros das despesas com tratamento médico de veteranos e pagamentos de indenizações por incapacidade.

Outra ausência envolve o desgaste da própria máquina militar. Navios, aeronaves e outros equipamentos submetidos a operações intensas poderão exigir manutenção adicional no futuro. Essa despesa também não entrou no cálculo atual.

Nem mesmo o custo das bases americanas atingidas no Oriente Médio pôde ser determinado.

O CBO afirma que o Departamento de Defesa não forneceu informações suficientes sobre o valor dos equipamentos e instalações danificados ou destruídos. Também não está claro quanto será reconstruído e quanto poderá eventualmente ser pago pelos países que abrigam essas bases.

Os US$ 38,1 bilhões, portanto, não encerram a contabilidade.

Eles mostram quanto de uma parte mensurável da guerra já pode ser colocado na ponta do lápis.

A guerra afetou rotas estratégicas de petróleo no Estreito de Ormuz e no Mar Vermelho, reduzindo embarques e pressionando os preços internacionais da energia

Amirhossein KhorgooeiISNA Via AFP

DO ESTREITO DE ORMUZ AO BOLSO DO AMERICANO

ara o Escritório de Orçamento do Congresso, o CBO, o principal mecanismo pelo qual a guerra contra o Irã afeta a economia dos Estados Unidos passa pelo petróleo. A redução dos embarques pelo Estreito de Ormuz e as perturbações na navegação pelo Mar Vermelho elevaram os preços internacionais da energia.

O efeito foi rápido. Antes do conflito, o petróleo Brent registrava aproximadamente US$ 64 por barril no quarto trimestre de 2025. No segundo trimestre de 2026, chegou ao pico de US$ 103.

Nas projeções atualizadas com informações disponíveis até 17 de agosto, o CBO calculava que o Brent poderia recuar para US$ 84 no fim de 2026 e US$ 76 no final de 2027. Mesmo assim, a estimativa do preço médio do petróleo para este ano ficou 41% acima do que o órgão previa em fevereiro, antes da guerra.

A alta não fica restrita à gasolina. O conflito também provocou dificuldades no refino, pressionando os preços do diesel e do combustível de aviação.

Depois vem o efeito indireto. Praticamente toda mercadoria precisa ser transportada entre sua produção e o consumidor. Quando o combustível fica mais caro, aumenta o custo do frete e parte dessa despesa acaba incorporada aos preços de outros produtos e serviços.

É por isso que o CBO considera que a guerra continuará pressionando a inflação mesmo quando o impacto direto da energia começar a diminuir.

O órgão calcula que, no primeiro trimestre de 2027, a inflação anual medida pelo índice de preços dos gastos de consumo pessoal, o PCE, estará 0,5 ponto percentual acima da previsão feita em fevereiro de 2026. Na inflação subjacente, que exclui alimentos e energia, o impacto será de 0,3 ponto.

Gasolina, diesel e combustível de aviação respondem rapidamente às mudanças no petróleo. Outros produtos demoram mais porque o aumento percorre toda a cadeia de produção e transporte. Segundo o CBO, no início de 2027, cerca de 40% da mudança no nível do PCE atribuída ao conflito virá de gasolina e outros combustíveis. A maior parte será consequência dos efeitos indiretos sobre outros bens e serviços.

A pressão chega também aos juros. O CBO estima que as taxas de curto prazo ficaram aproximadamente 0,2 ponto percentual acima do que havia projetado antes da guerra.

Juros maiores aumentam o custo do endividamento do governo americano. Ao mesmo tempo, a inflação eleva despesas de programas indexados e pode aumentar receitas nominais. Para o CBO, esses efeitos sobre o orçamento federal tendem a ser relativamente modestos e, em grande medida, compensatórios.

US$ 87,6 bilhões pedidos ao Congresso

O relatório revela outra dimensão da conta. Em 24 de junho, o governo americano solicitou ao Congresso US$ 87,6 bilhões em recursos suplementares para a Operation Epic Fury e outras finalidades. Desse total, US$ 67,1 bilhões seriam destinados ao Departamento de Defesa.

Nem todo o dinheiro, porém, estava diretamente relacionado aos combates. Ao analisar as rubricas, o CBO identificou aproximadamente US$ 42,3 bilhões que aparentemente tinham relação direta com a guerra. O valor é cerca de 10% superior aos US$ 38,1 bilhões calculados pelo órgão.

Há ainda uma parcela que chama atenção. O pedido incluía US$ 12,1 bilhões para programas classificados. Segundo o CBO, solicitações suplementares feitas durante conflitos anteriores, como as operações no Afeganistão e no Iraque, não apresentavam proporção tão elevada de recursos classificados.

Em 22 de julho, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, apresentou outra estimativa. Em depoimento ao Comitê de Serviços Armados do Senado, afirmou que as operações contra o Irã custariam US$ 37,5 bilhões até setembro.

Posteriormente, o Departamento de Defesa informou ao comitê que US$ 25 bilhões correspondiam às munições utilizadas. Duas semanas depois, atualizou essa parcela para US$ 27,7 bilhões.

Apesar das diferenças de metodologia, os números apontam para uma mesma dimensão: a guerra movimentou dezenas de bilhões de dólares em poucos meses.

E a conta permanece aberta.

O CBO não conseguiu calcular despesas diplomáticas e de ajuda externa que ainda poderão surgir. Também não colocou preço nos militares mortos ou feridos, não incorporou futuras despesas médicas e indenizações de veteranos e não sabe quanto poderá custar a reconstrução de instalações atingidas.

Também não sabe quanto tempo a guerra vai durar.

O que o relatório consegue mostrar é quanto custou chegar até aqui: US$ 38,1 bilhões até 1º de agosto, com a possibilidade de mais US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões a cada mês, dependendo da intensidade dos combates.

Há ainda estoques de interceptadores que podem levar pelo menos cinco anos para serem reconstruídos e um choque no petróleo que atravessou o campo de batalha e chegou à inflação.

A conta da guerra, portanto, não termina quando um míssil atinge o alvo.

Ela continua na fábrica que precisará produzir outro, no arsenal que levará anos para voltar ao nível anterior, nos juros, nos combustíveis e nas mercadorias transportadas por uma economia dependente de energia.

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O relatório do Congresso coloca números nessa dimensão do conflito e mostra que o preço de uma guerra continua sendo pago muito depois de cada ataque terminar.

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