Quase oito meses após a queda de Nicolás Maduro, muitos venezuelanos têm sentimentos mistos. Celebram sua captura e um sopro de liberdade, mas a crise que pulverizou salários e obrigou milhões a migrar continua. 

Proprietários de uma confeitaria, Marbelis Daliz e o marido Arlindo Da Silva enfrentam uma inflação sufocante e apagões, males crônicos do país com as maiores reservas de petróleo do mundo. Seus ganhos mal cobrem os custos. 

"Após 3 de janeiro, tínhamos uma expectativa e uma felicidade e dizíamos: a Venezuela mudou", conta Marbelis à AFP. Mas "infelizmente a realidade nos derrubou", acrescenta.

Desde 2019, a economia vive uma dolarização diante da descomunal desvalorização de sua moeda. 

Com a tutela americana sobre o país, muitos esperavam uma chuva de dólares, mas a inflação anual em bolívares se aproxima de 575%. A inflação em dólares também é elevada, mas não há cifra oficial para 2026. No ano passado foi de 35%. 

A ativista social Zaida Mujica tinha "muitas esperanças". Mas "levaram o ditador e não a ditadura", lamentou.  

A presidente interina Delcy Rodríguez, que governa sob forte pressão de Washington, promeveu uma reforma da lei de hidrocarbonetos e uma nova legislação para a mineração, com o objetivo de atrair investimento externo. 

Em abril, reajustou a remuneração dos servidores públicos em 240 dólares (1.239 reais), mas o salário mínimo é de apenas 130 bolívares mensais, alguns centavos de dólar (0,84 real). A cesta básica superou os 700 dólares em julho (3.614 reais), segundo o centro de estudos Cendas. 

A produção diária de petróleo da Venezuela aumentou quase 29,8% desde janeiro, de acordo com cifras oficiais. 

"Uma mudança política era importantíssima, necessária, mas não suficiente para gerar estabilidade e crescimento macroeconômicos", diz José Manuel Puente, do Instituto de Estudos Superiores de Administração (IESA). 

Para o especialista, enquanto o país mantiver "a inflação mais elevada do mundo", não haverá bem-estar.

- "Estamos sobrevivendo" -

Quando as forças americanas capturaram Maduro após um bombardeio contra Caracas e seus arredores, Javier Chacón e a esposa Delia, ambos costureiros, comemoraram dentro de casa, temendo a repressão que marcou seus 13 anos de mandato. 

"Logicamente, pensamos que haveria uma mudança", conta Javier. Mas ainda "estamos sobrevivendo", assegura. 

Em 24 de junho, dois terremotos que deixaram mais de 6.500 mortos e centenas de edifícios em ruínas agravaram a situação, especialmente na devastada La Guaira, vizinha de Caracas. 

"Você tem que sair e continuar lutando", afirma Carmen Ramírez, vendedora de artigos de higiene em um praça de Caracas, enquanto organiza as mercadorias em sua caminhonete, que usa como vitrine e depósito.

- "O monstro continua vivo" -

Marbelis Daliz percebe uma mudança: a perda do medo depois de um período de silêncio marcado por prisões em massa após a reeleição de Maduro em 2024, que a oposição denunciou como fraude. 

"Eu não me atrevia a postar sobre política no Instagram, agora eu coloco: que legal que o Maduro foi embora!", afirma. 

Há meses, professores, profissionais da saúde, familiares de presos políticos e até militantes de esquerda protestam em praças públicas. 

O governo interino e um setor da oposição iniciaram um diálogo político, patrocinado por Washington, com vistas a uma transição democrática. 

No entanto, para venezuelanos como Jerry Ostos, ex-preso político libertado em março, o "monstro continua vivo". Ele cumpriu dois anos de prisão por exibir um cartaz contra Maduro e precisa se apresentar mensalmente à Justiça.

O governo afirma que libertou 1.046 presos políticos desde janeiro, mas, segundo a ONG Foro Penal, quase 400 continuam atrás das grades.

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