O rei Harald V da Noruega, que faleceu nesta sexta-feira (28) aos 89 anos, permaneceu até o último momento como uma figura unificadora em seu país, um pilar em meio a uma sucessão de escândalos familiares que marcaram os últimos anos de seu reinado.
No trono desde 1991, o até agora monarca mais idoso da Europa sofreu problemas de saúde cada vez mais graves em seus últimos anos, mas se recusou de modo veemente a abdicar.
Em 17 de agosto, o soberano voltou a ser hospitalizado em Oslo devido a complicações em seu tratamento contra uma anemia hemolítica, uma doença sanguínea. O estado de saúde piorou nas últimas horas. Na quinta-feira, o Palácio Real informou que ele estava em condição "extremamente grave".
Apesar de seus poderes limitados como chefe de Estado, o rei inspirou unidade na Noruega, sempre encontrando as palavras certas nos momentos difíceis. Um desses momentos aconteceu depois que o neonazista Anders Behring Breivik matou 77 pessoas em dois atentados em 22 de julho de 2011, o pior massacre na Noruega desde a Segunda Guerra Mundial.
"Acredito firmemente que a liberdade é mais forte do que o medo. Acredito firmemente em uma democracia e em uma sociedade norueguesa aberta", declarou.
O rei também adotou os valores progressistas do país escandinavo, o que enfatizou em um discurso para celebrar seus 25 anos à frente do país, em 2016.
"Os noruegueses são meninas que amam meninas, meninos que amam meninos, e meninas e meninos que se amam entre si", disse. "Os noruegueses acreditam em Deus, em Alá, no Universo e em nada", acrescentou.
- Até o último suspiro -
Ao contrário de outros monarcas europeus, como Juan Carlos I na Espanha, Albert II na Bélgica, Beatrix nos Países Baixos e sua prima distante Margrethe II na Dinamarca, que abdicaram, o rei Harald deixou claro que pretendia reinar até o último suspiro.
"O juramento que prestei perante o Parlamento dura enquanto eu viver, simples assim", repetia.
Como muitos de seus súditos, o rei Harald amava a natureza e era fã de pesca, caça e esqui. Um atleta de talento — representou a Noruega na vela em três edições dos Jogos Olímpicos —, era alto e robusto, e sua aparência austera escondia um mordaz senso de humor.
Porém, ele teve que enfrentar problemas de saúde cada vez mais graves ao longo dos anos. Harald foi operado de um câncer de bexiga em 2003 e passou por uma cirurgia cardíaca dois anos depois; em seus últimos anos andava de muletas, recebeu um marca?passo em 2024 e foi internado em diversas ocasiões.
Harald nasceu em 1937. Três anos mais tarde, os nazistas invadiram a Noruega e, em abril de 1940, o futuro rei foi retirado do país, primeiro para a Suécia e depois para os Estados Unidos.
Durante o restante da Segunda Guerra Mundial, viveu em Washington com a mãe, a princesa Martha, enquanto o pai, o príncipe Olav, residia em Londres ao lado do rei Haakon.
- Escândalos -
Ele voltou à Noruega quando a paz chegou, levando uma vida o mais normal possível para alguém de sangue real.
O fim de seu reinado foi manchado por uma série de escândalos que, para seu grande desgosto, prejudicaram a reputação da monarquia.
Em 2024, sua filha Martha-Louise, adepta de terapias alternativas, virou manchete ao se casar com um autoproclamado xamã americano.
Em janeiro de 2026, a divulgação de arquivos relacionados ao criminoso sexual americano Jeffrey Epstein revelou a até então desconhecida amizade que ele tinha com a princesa Mette-Marit, esposa do herdeiro ao trono, o príncipe Haakon.
Alguns meses depois, Marius Borg Høiby, filho de Mette-Marit de um relacionamento anterior, foi condenado por um tribunal de Oslo a quatro anos de prisão por estupro e agressão, sentença contra a qual apresentou recurso.
- Popularidade da coroa -
O soberano sempre tentou permanecer sereno em meio às turbulências familiares. "No cerne do que significa ser humano reside o fato de que nenhum de nós é poupado da dor e da adversidade", disse o rei Harald em seu discurso de Ano Novo de 2025.
Embora ele tenha mantido sua popularidade intacta até o fim — era muito estimado por seu estilo de vida simples e modesto —, os escândalos prejudicaram a imagem da monarquia.
Segundo uma pesquisa divulgada em fevereiro de 2026 pela emissora NRK, apenas 60% dos noruegueses apoiavam a instituição, um nível que "nunca havia sido tão baixo".
Assim como seus filhos, Harald se casou com uma plebeia, Sonja Haraldsen. Mas, até que pudessem anunciar seu noivado, em 1968, o casal enfrentou nove anos de oposição até obter a aprovação do rei Olav e de parte da classe governante do país.
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