Em uma pequena instalação improvisada no centro da Faixa de Gaza, uma equipe trabalha para catalogar e preservar um dos recursos mais valiosos deste território palestino devastado pela guerra: as sementes nativas.
Prateleiras repletas de caixas plásticas simples alinham-se às paredes do banco de sementes de Al Qarara, abrigando variedades locais consideradas essenciais para a recuperação de um setor agrícola duramente atingido por dois anos de operações militares israelenses.
Com sede em Deir al-Balah, a equipe se empenha em recompor os estoques de sementes tradicionais de Gaza — grande parte dos quais foi destruída durante a guerra entre Israel e o Hamas, iniciada em outubro de 2023 com o ataque do movimento islamista palestino.
Ao contrário das variedades híbridas comumente comercializadas, as sementes tradicionais podem ser armazenadas e replantadas de um ano para o outro. Além disso, elas geralmente estão mais bem adaptadas às condições locais.
"Durante a guerra, elas foram o que nos ajudou a sobreviver", explica à AFP Salem Muhanna, líder do projeto lançado em 2017 com o apoio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).
"As sementes tradicionais garantem a continuidade. Elas nos permitem obter de 80% a 90% do mesmo rendimento, ano após ano. Por isso dependemos delas", observa.
A guerra afetou gravemente o projeto. "Os combates destruíram completamente o banco e levaram à perda de inúmeras variedades", observa Hanadi Muhanna, de 27 anos, filha de Salem Muhanna, que também participa do projeto. "Além disso, como fomos deslocados várias vezes, foi difícil recomeçar", acrescenta.
- Raio de esperança -
Assim como todos os outros aspectos da vida no território costeiro palestino, a agricultura em Gaza foi duramente atingida pela guerra, com a violência persistindo apesar do cessar-fogo em vigor desde outubro de 2025.
Antes de 2023, a agricultura e a pesca representavam 10% da economia de Gaza, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
No entanto, a FAO relata que, atualmente, apenas 3% das terras aráveis de Gaza permanecem intactas e acessíveis aos agricultores.
As restrições israelenses à entrada de mercadorias no território agravam ainda mais os desafios enfrentados pelos agricultores.
"Não há água, fertilizantes nem produtos químicos agrícolas", explica Salem Muhanna.
O banco de sementes de Al Qarara opera com um sistema de empréstimo: agricultores de confiança recebem sementes que devem ser devolvidas ao final da safra.
Para Osama Al Mukhalalati, chefe de segurança econômica do CICV, o banco serve não apenas para manter a produção de alimentos nas terras cultiváveis restantes, mas também para preservar o patrimônio agrícola de Gaza para o futuro.
"Vemos este projeto como um raio de esperança em meio à escuridão total que paira sobre o setor agrícola", afirma.
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