A Indonésia aposta na semeadura de nuvens para enfrentar uma temporada de incêndios florestais que, segundo especialistas, pode se tornar uma das piores dos últimos anos, agravada pelo fenômeno El Niño.

O governo afirma que mais de 100 mil hectares foram queimados no primeiro semestre. Uma análise independente do site de monitoramento do desmatamento Nusantara Atlas estima, porém, que mais de 285 mil hectares tenham sido atingidos até julho.

A semeadura de nuvens consiste em dispersar iodeto de prata e sais nas nuvens para provocar precipitações e é pouco utilizada no mundo no combate a incêndios florestais.

"A modificação do clima não cria nuvens. Otimizamos as nuvens que têm potencial para produzir chuva", explicou à AFP a meteorologista Safillah Anggie Wahyuni após sobrevoar Palangkaraya, em Kalimantan Central, na parte indonésia da ilha de Bornéu.

O país intensificou o uso da técnica após os incêndios de 2015, durante outro forte episódio de El Niño, que devastaram milhões de hectares e provocaram uma crise regional de poluição atmosférica.

Entre 2021 e agosto deste ano, a Indonésia realizou 252 operações de semeadura de nuvens, contra 85 na década anterior, segundo a agência meteorológica BMKG.

Muitas operações tiveram como objetivo apagar incêndios ou umedecer turfeiras inflamáveis. O governo anunciou que dezenas de helicópteros e aviões estão preparados para realizar novas ações em todo o país.

- Falta de nuvens -

A maior parte do combate aos incêndios, no entanto, continua sendo feita em terra, com cerca de 50 mil bombeiros mobilizados atualmente.

Especialistas questionam a eficácia da semeadura durante a estação seca, justamente quando os incêndios atingem seu auge.

"Sua eficácia será muito baixa devido à falta de nuvens", afirmou Putu Santikayasa, professor de hidroclimatologia da Universidade IPB.

Também há dúvidas sobre possíveis impactos do uso em larga escala de iodeto de prata e sobre o custo das operações.

A semeadura de nuvens é "um esforço de mitigação, não uma solução permanente", reconheceu Budi Harsoyo, diretor de modificação meteorológica da BMKG.

Ativistas afirmam que a técnica não enfrenta problemas estruturais, como a transformação em larga escala de florestas tropicais e turfeiras. Quando secas, as turfeiras, que armazenam grandes quantidades de matéria vegetal e carbono, tornam-se altamente inflamáveis.

Os incêndios na Indonésia enviam regularmente densas nuvens de fumaça para Malásia e Singapura. Nos últimos dias, a poluição provocou o fechamento de escolas na parte malaia de Bornéu.

Além da semeadura de nuvens, o país tenta reumedecer turfeiras e monitora focos de incêndio por satélites e patrulhas terrestres.

Os incêndios deste ano devem ser agravados pelo El Niño, que costuma provocar condições mais secas na Indonésia. A área queimada apenas no primeiro semestre já supera a registrada durante todo o ano de 2023, quando ocorreu o último episódio do fenômeno.

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