Pais afegãos relatam à AFP sua busca por soluções para as filhas adolescentes, privadas de educação pelo governo talibã.
Muitos defensores da educação para todos foram presos no Afeganistão. Por isso, falaram com a AFP sob anonimato.
O Afeganistão é o único país do mundo onde a educação de meninas é proibida após o ensino fundamental.
Ao retomarem o poder há cinco anos, os talibãs as excluíram do ensino médio e das universidades em 2022. Alguns afirmam que a proibição é temporária.
Mais de quatro anos se passaram com "pelo menos um milhão de meninas diretamente afetadas pelas restrições ao ensino médio", segundo a ONU.
As autoridades afirmam aplicar a lei islâmica. Os entrevistados, muçulmanos praticantes, rejeitam a justificativa. "Você nunca encontrará no Alcorão que a educação é reservada aos homens", afirma Mohammad.
Segundo uma pesquisa realizada em 2025 pela ONU Mulheres, 95% dos homens afegãos em zonas urbanas e 87% nas áreas rurais consideram importante que as meninas frequentem o ensino médio.
O governo talibã não respondeu os pedidos de comentário da AFP.
- Exílio -
Ahmad, de 40 anos, é pai de quatro meninas (12, 10, 8 e 2 anos) e um menino. Engenheiro, casado com uma professora que já não pode lecionar, jamais imaginaria que suas filhas "acabariam analfabetas".
"No século XXI, concluir apenas o ensino fundamental é como ser analfabeto", diz.
Ele e a esposa querem se exilar. Ex-funcionário de organizações internacionais, Ahmad solicitou vistos para Suécia, Dinamarca e Alemanha. Não conseguiu.
Um visto para os Estados Unidos estava bem encaminhado até que o presidente Donald Trump congelou todos os pedidos.
Na cidade onde vivem não há escolas clandestinas, que eles saibam. Os cursos online são caros, 1.500 dólares por ano (7.643 reais), e o salário de Ahmad é de 2.400 (12.229 reais).
Em cinco meses, a mais velha concluiria o ensino fundamental, mas sofreu uma fratura, o que arrisca sua formatura. "Ela ficou triste, mas se reprovar será uma oportunidade de passar mais um ano na escola".
- Clandestinidade -
Mohammad, de 42 anos, tem duas filhas (de 14 e 12 anos) e dois filhos.
Antes, "pensava em mandá-las para uma das melhores faculdades", lembra o médico de uma pequena localidade na província de Cabul.
Mohammad procurava uma solução quando um conhecido indicou uma escola que, de forma clandestina, ensina disciplinas gerais além dos programas religiosos. "É uma escola particular".
Custa 150 dólares (764 reais) mensais para duas alunas e não emite diploma. Há riscos se as autoridades fizerem uma inspeção.
"Não gostaria que minhas filhas fossem colocadas sob custódia". Mas "o mais importante é que continuem aprendendo".
- Mudança -
N., de 35 anos, é pai de uma menina de 12 anos e de três meninos. "Minha filha está muito interessada em astronomia", conta o assistente social.
"Ela me fez perguntas sobre a gravidade e respondi: 'Você vai aprender isso mais tarde'". "Como, se eu não posso continuar estudando?", indagou a menina, no último ano do ensino fundamental.
Graças à mudança para Cabul, ela ganhou tempo. Onde viviam, em Kandahar, reduto dos talibãs, algumas escolas as excluem antes de concluírem o ensino fundamental.
Os pais exploram todas as opções em um cotidiano marcado pela escassez de trabalho e redução da ajuda internacional.
- Madraça -
M., 32 anos, tem uma filha e dois filhos. Era um dia de celebração, mas a filha do diretor de logística ficou chorando em seu quarto. Com 13 anos, já não pode ir à escola.
"Além disso, as meninas não têm direito de ir aos parques para passear, é muito estressante", diz o pai.
M. faz o que pode para tirar a filha de casa e a leva ao restaurante uma vez por semana.
Economizou para que ela estudasse no Irã, mas a guerra destruiu seus planos.
Então a matriculou em uma madraça, um centro corânico que recebe meninas após o ensino fundamental, "para que tivesse interações sociais".
Há pouco tempo, a adolescente passou a se recusar a frequentar o local. "Mesmo que eu continue, não há futuro para mim", diz.
- Disciplina -
Nassir, de 47 anos, é pai de duas meninas (12 e 15 anos) e de um menino.
O auxiliar administrativo lembra do último dia do ensino fundamental da caçula. "Minha filha e todas as colegas ficaram revoltadas, foi trágico", diz.
Ele e a esposa, professora, recuperaram livros do ensino médio e ajudam as filhas a estudar em casa. A disciplina é rígida: "Dormir cedo, levantar no horário que iam à escola".
As meninas dão aulas de reforço para as crianças do prédio. Há pouco tempo, passaram a frequentar aulas fora, clandestinamente.
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