Divulgado ontem pela organização No One Above, o reconhecimento oficial de quatro mulheres como vítimas de tráfico de pessoas para exploração sexual abriu um novo capítulo no caso Mohamed Al Fayed, ampliando uma investigação que transformou um dos maiores símbolos do luxo britânico em cenário de uma das mais graves acusações de abuso e exploração sexual do país. A entidade, que representa mulheres que denunciam o empresário, informou que os casos foram reconhecidos pelo Ministério do Interior do Reino Unido, reforçando a suspeita de que os abusos atribuídos ao antigo dono da Harrods não seriam episódios isolados, mas parte de uma estrutura protegida durante décadas pelo poder, pelo dinheiro e pelo medo.
A nova classificação das vítimas mudou o centro da investigação. O caso, que inicialmente tratava das acusações de abuso sexual contra o bilionário egípcio, passou a envolver uma questão mais ampla: como um dos homens mais influentes do Reino Unido conseguiu agir por tantos anos sem ser interrompido.
Mohamed Al Fayed morreu em 2023, aos 94 anos, sem jamais responder criminalmente pelas acusações. Durante décadas, porém, seu nome esteve associado a outra narrativa. Era o empresário que transformou a Harrods em um dos maiores símbolos mundiais do luxo, dono do Hotel Ritz, em Paris, e uma figura conhecida internacionalmente pela ligação do filho, Dodi Al Fayed, com a princesa Diana.
A morte de Dodi e Diana, em um acidente de carro em Paris, em 1997, colocou Al Fayed no centro dos holofotes. O empresário passou anos contestando as conclusões oficiais sobre a tragédia e defendendo a tese de que o casal havia sido vítima de uma conspiração. Sua imagem pública ficou marcada também pela influência, pela riqueza e pela proximidade com os círculos mais poderosos da Europa.
Mas, por trás dessa imagem, dezenas de mulheres começaram a relatar uma história diferente.
Segundo as denúncias, jovens funcionárias eram recrutadas para trabalhar próximas ao empresário e aos membros de sua família. Muitas ocupavam cargos como assistentes pessoais ou funções que permitiam contato direto com os proprietários dos negócios. Os relatos descrevem viagens, encontros privados e situações nas quais, segundo as vítimas, ocorreram abusos sexuais, agressões e exploração.
As acusações abrangem principalmente as décadas de 1990 e 2000 e envolvem empresas ligadas à família Fayed, como a Harrods e o Ritz Paris. Durante anos, porém, esses relatos permaneceram longe do conhecimento público. Muitas mulheres afirmam que se mantiveram em silêncio por medo de perder o emprego, sofrer represálias ou não serem acreditadas diante do poder econômico do empresário.
O DOCUMENTÁRIO QUE MUDOU TUDO
O silêncio começou a ruir em setembro de 2024, quando o documentário “Al-Fayed: Predator at Harrods”, exibido pela BBC, revelou os relatos de ex-funcionárias que acusaram Mohamed Al Fayed de abusos sexuais cometidos durante décadas.
Mais de 20 mulheres compartilharam suas histórias e descreveram como, segundo elas, o empresário teria usado sua posição de poder e suas empresas para manipular e explorar funcionárias.
A produção mudou completamente o rumo do caso. O que antes permanecia restrito aos bastidores transformou-se em uma investigação pública. Novas vítimas procuraram as autoridades, denúncias antigas ganharam visibilidade e o foco da investigação passou a alcançar também os irmãos de Mohamed, Salah e Ali Fayed.
O documentário não apenas revelou acusações. Ele deu rosto às mulheres que durante anos permaneceram em silêncio e colocou uma nova pergunta no centro da investigação: se os abusos ocorreram durante tanto tempo, quem permitiu que eles continuassem?
Elas decidiram não se calar
Entre as mulheres que deram rosto ao caso está Amy McIlquham, canadense que entrou na Harrods em 1993 e foi promovida para atuar como assistente pessoal de Mohamed Al Fayed. Ela afirmou que, em 1994, foi enviada para uma viagem à Suíça para trabalhar nessa condição.
Mas, segundo seu relato, ao chegar ao local percebeu que não havia uma atividade profissional prevista. “Não havia trabalho a fazer. Eu estava sozinha no chalé com Ali e uma governanta.” Ela afirmou que foi vítima de abuso sexual durante a viagem.
"Fui molestada, sexualmente molestada, sem dúvida. E ele só estava rindo."
Ali Fayed negou as acusações e afirmou que os supostos episódios nunca ocorreram.
Outra denunciante é Rachael Louw, que entrou na Harrods em 1993 e foi recrutada no ano seguinte para trabalhar como assistente pessoal de Salah Fayed. Ela afirmou que acreditava que as viagens faziam parte de suas funções profissionais.
“Achei que me dariam arquivos para arquivar, papelada para guardar, talvez eu fosse cuidar dos preparativos da viagem.”
Segundo Rachael, depois das situações que descreveu como abusivas, ela decidiu deixar a função. Anos depois, explicou por que demorou a falar: “Isso foi apenas uma parte da minha vida que coloquei em uma caixa e nunca abri.”
Kristina Svensson, que trabalhou como assistente pessoal de Mohamed Al Fayed no Ritz Paris entre 1998 e 2000, ampliou as denúncias para além da Harrods. Ela afirmou que existia um ambiente de silêncio dentro da empresa. “Não fomos contratadas para empregos de verdade. Fomos contratadas para sermos abusadas sexualmente."
Ao explicar o medo de denunciar, ela afirmou: “Eu estava tão, tão assustada, e não conseguia escapar.” Segundo o relato, após comunicar o abuso a um executivo do Ritz Paris, ela acabou demitida.
Também está entre as denunciantes Pelham Spong, americana que tinha 23 anos quando recebeu uma proposta para trabalhar com os negócios da família Fayed em Mônaco. Ela afirmou que inicialmente enxergou a oportunidade como uma grande chance profissional.
“Sou uma mulher ambiciosa. Acho que sou bem inteligente, e isso parece incrível.”
Segundo seu relato, após a contratação, Mohamed Al Fayed teria feito propostas envolvendo benefícios financeiros e profissionais em troca de sexo.
As histórias dessas mulheres mudaram o centro da investigação. O caso deixou de ser apenas sobre acusações contra um empresário poderoso e passou a questionar se existia uma estrutura capaz de facilitar abusos e manter denúncias em silêncio por décadas.
Outros envolvidos?
Advogados das vítimas afirmam que a investigação precisa analisar não apenas a conduta de Mohamed Al Fayed, mas também o papel de funcionários e colaboradores que poderiam ter permitido a continuidade dos abusos. A própria Harrods reconheceu falhas do período em que o empresário controlava a empresa e criou um programa para analisar pedidos de indenização apresentados por antigas funcionárias.
O reconhecimento das quatro primeiras vítimas de tráfico humano representa uma nova etapa. A classificação indica que as autoridades britânicas identificaram elementos que vão além da violência sexual individual, envolvendo possível recrutamento, controle e exploração de mulheres em situação de vulnerabilidade.
Mohamed Al Fayed morreu antes de enfrentar um julgamento. Mas seu império continua sendo investigado. A pergunta que permanece no centro do caso não é apenas o que aconteceu dentro da Harrods e de outras empresas ligadas à família, mas como uma estrutura de poder, prestígio e influência conseguiu manter tantas vozes em silêncio durante tanto tempo.
Quem foi ele
Mohamed Al Fayed nasceu em Alexandria, no Egito, em 1929, e construiu um império internacional de negócios que o transformou em um dos empresários mais influentes do Reino Unido. Dono da tradicional loja de departamentos Harrods, em Londres, e do luxuoso Hotel Ritz, em Paris, tornou-se presença constante nos círculos da alta sociedade britânica, convivendo com políticos, empresários, celebridades e membros da aristocracia. Sua projeção mundial aumentou em 1997, após a morte do filho, Dodi Al Fayed, ao lado da princesa Diana, em um acidente de carro em Paris. Durante anos, contestou a versão oficial da tragédia e alegou a existência de uma conspiração. Morreu em agosto de 2023, aos 94 anos, sem responder criminalmente por acusações de abuso e exploração sexual que, após sua morte, deram origem a uma das maiores investigações envolvendo um empresário na história recente do Reino Unido.
O que você precisa saber sobre o caso Mohamed al fayed
O caso envolve denúncias de abuso sexual e exploração apresentadas por centenas de mulheres contra o empresário egípcio Mohamed Al Fayed, ex-proprietário da Harrods e do Hotel Ritz Paris. As investigações apontam que funcionárias eram recrutadas para cargos próximos ao empresário e, segundo os relatos, submetidas a abusos e intimidações. Agora, quatro mulheres foram reconhecidas oficialmente pelo Reino Unido como vítimas de tráfico de pessoas para exploração sexual, ampliando o alcance da investigação.
O DOCUMENTÁRIO QUE ROMPEU O SILÊNCIO
Exibido pela BBC em setembro de 2024, “Al-Fayed: Predator at Harrods” reuniu depoimentos de mais ex-funcionárias e transformou o caso em uma investigação de repercussão internacional
RACHAEL LOUW
RACHAEL LOUW (ex-assistente de Salah Fayed) disse que viagens de trabalho terminaram em situações abusivas: “Achei que me dariam arquivos para arquivar ( ...) Isso foi apenas uma parte da minha vida que coloquei em uma caixa e nunca abri.”
KRISTINA SVENSSON
KRISTINA SVENSSON (ex-assistente no Ritz Paris) afirma que havia um ambiente de silêncio dentro da empresa: "Não fomos contratadas para empregos de verdade. Fomos contratadas para sermos abusadas sexualmente. Eu estava tão, tão assustada, e não conseguia escapar.”
Como operava o esquema(segundo as investigações)
1 - RECRUTAMENTO
A porta de entrada era profissional
Jovens mulheres eram contratadas para trabalhar em empresas ligadas à família Fayed, principalmente na Harrods e no Ritz Paris. Muitas ocupavam cargos de assistente pessoal ou funções que permitiam contato direto com Mohamed Al Fayed e seus familiares.
2 - APROXIMAÇÃO PELO PODER
A relação profissional criava dependência
Segundo as denunciantes, a proximidade com os proprietários estabelecia uma relação de desigualdade. Viagens, encontros privados e compromissos fora do ambiente de trabalho aparecem nos relatos como momentos em que teriam ocorrido abusos.
3 - ISOLAMENTO
O medo mantinha o silêncio
As mulheres afirmam que temiam perder o emprego, prejudicar suas carreiras ou enfrentar um empresário com enorme influência econômica e política. Muitas denúncias permaneceram ocultas durante anos.
4 - CONTROLE E SILENCIAMENTO
A influência dificultava as acusações
As vítimas relatam dificuldades para formalizar denúncias dentro de uma estrutura ligada a um dos homens mais poderosos do Reino Unido. Investigadores e advogados também analisam o possível papel de colaboradores.
5- O ROMPIMENTO DO SILÊNCIO
Em 2024, a BBC levou o caso a público
O documentário “!Al-Fayed: Predator at Harrods”, exibido pela rede BBC em setembro de 2024, reuniu relatos de ex-funcionárias e mudou a dimensão da investigação. Após a divulgação, mais mulheres procuraram as autoridades e investigadores passaram a apurar a possibilidade de uma estrutura organizada de exploração.
AS PRIMEIRAS VÍTIMAS DE TRÁFICO HUMANO
ISABELLA Reconhecida pelo Ministério do Interior britânico como vítima de tráfico de pessoas para exploração sexual.
Representada pela No One Above, afirma ter sido explorada enquanto trabalhava em empresas ligadas a Mohamed Al Fayed.
JUSTINE Também reconhecida pelas autoridades britânicas. Seu caso foi encaminhado pela Unseen UK e integra a
investigação sobre um possível sistema de recrutamento e exploração de mulheres.
ELIZABETH Reconhecida por meio do National Referral Mechanism (NRM). Seu depoimento faz parte da apuração sobre o uso da posição de poder de Al Fayed para explorar funcionárias.
MARGO A quarta vítima reconhecida oficialmente. Representada pela No One Above, seu caso reforça a hipótese de que os abusos faziam parte de uma estrutura organizada.
Por que as identidades são mantidas em sigilo?
As quatro mulheres foram identificadas publicamente apenas pelos pseudônimos Isabella, Justine, Elizabeth e Margo. A preservação de suas identidades segue uma prática adotada pelas autoridades britânicas e por organizações de apoio às vítimas de violência sexual e tráfico de pessoas. O objetivo é proteger a privacidade das denunciantes, evitar revitimização, reduzir o risco de represálias e incentivar outras vítimas a denunciar sem receio de exposição pública. O anonimato também é uma medida prevista em investigações que envolvem exploração sexual e escravidão moderna no Reino Unido.
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O que mudou
O Ministério do Interior do Reino Unido reconheceu quatro mulheres como vítimas de tráfico de pessoas para exploração sexual. O reconhecimento, divulgado pela organização No One Above, amplia o alcance das investigações porque indica que as autoridades passaram a analisar o caso não apenas como uma sequência de crimes sexuais, mas como um possível sistema organizado de recrutamento, controle e exploração de mulheres.
