"Do que nós queremos brincar?", pergunta Juan Cordero para animar um grupo de crianças que ficaram sem casa após os terremotos na Venezuela. "Futebol!", respondem em coro as vozes infantis, enquanto saem correndo entre barracas e ambulâncias.

Pedreiro e treinador de futebol das categorias de base para crianças de oito a doze anos, Cordero busca agora levar alegria aos pequenos que há dias vivem ao relento no estacionamento de uma farmácia em Catia La Mar, uma localidade devastada pelo duplo terremoto.

"Sem empurrões. É como se estivéssemos jogando futebol, marcamos um a um", orienta o esportista de 45 anos às crianças que correm em círculos no acampamento improvisado.

Vizinha ao aeroporto internacional, que ficou parcialmente destruído, Catia La Mar é uma das áreas do estado costeiro de La Guaira mais afetadas pelos terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 ocorridos em 24 de junho, que já causaram mais de 1.700 mortes.

Cordero ficou sem casa, assim como milhares de outras pessoas que perderam suas moradias nos terremotos que destruíram quarteirões inteiros.

A primeira coisa que ele pede são artigos esportivos para as crianças. "Todos eles são meus filhos", diz com ternura e bom humor.

"Há muitas coisas que a gente gostaria de dizer ou pedir, como a vida. Mas, enfim, que me ajudem com materiais esportivos (...) com aquilo que se usa para trabalhar no futebol", afirma. "Estamos fazendo isso por eles para que consigam distrair a mente", explica.

Ele perdeu a irmã e vários de seus vizinhos. "Eu não estou pedindo dinheiro, nem nada", ressalta. O que espera é receber doações de bolas de futebol, coletes, cones e tênis para as crianças da escolinha.

Mais de 58 mil edifícios foram danificados ou destruídos pelos terremotos, segundo uma avaliação preliminar de dados de satélite realizada por pesquisadores americanos.

A situação no estado de La Guaira, próximo a Caracas, é catastrófica. Centenas de pessoas dormem nas ruas. Outras escavam dia e noite entre montanhas de escombros em busca de seus mortos para enterrá-los. A esperança de encontrar sobreviventes praticamente desapareceu.

"Volta, volta, volta, volta!", grita Cordero com toda a força para incentivar as crianças a correrem em círculos. "Peguem o doutor!", diz aos pequenos, que, entre risadas, correm para abraçar um dos médicos voluntários.

A esposa de Cordero, que sofreu ferimentos, descansa em uma barraca improvisada enquanto ele brinca com as crianças. Seus três filhos o acompanham. "Vamos passo a passo, agora é viver um dia de cada vez", consola-se.

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