Sob as imponentes estantes da Feira do Livro de Teerã, centenas de torcedores acompanharam o empate sem gols entre Bélgica e Irã neste domingo (21), numa partida que contou com o 'Team Melli', seleção que carrega o peso das profundas divisões existentes na República Islâmica. 

Dentro do vasto complexo cultural, famílias, estudantes, aposentados e jovens casais ocuparam fileiras de assentos diante de telões que transmitiam a partida, realizada nos Estados Unidos. 

Quando os jogadores entraram em campo, uma salva de palmas percorreu o local, embora nem todos tenham participado. 

"Como jogo futebol desde muito jovem e amo o esporte, adoro todas as partidas e assisto a todas elas", disse Farhad Cheshmi, de 29 anos, à AFP, antes de deixar claro que aquele jogo específico não lhe despertava tanto interesse.

- Seleção vinculada ao regime -

Esses sentimentos contraditórios refletem os debates mais amplos que cercam a seleção iraniana há anos. Alguns críticos acreditam que a equipe está excessivamente ligada a instituições estatais e continuam insatisfeitos com os desdobramentos políticos no país. 

Outros argumentam que a má gestão enfraqueceu o esporte, apontando a nomeação de dirigentes com histórico político ou militar para cargos de alto escalão no meio esportivo. 

Muitos torcedores também criticam decisões da comissão técnica, incluindo a ausência do atacante e astro Sardar Azmoun. 

"É verdade que a equipe tem se envolvido em muitas polêmicas, mas, aconteça o que acontecer, é a seleção nacional", garantiu Amir Hossein Rahimi, de 25 anos, um trabalhador do setor privado.

- "Decepcionado' -

No entanto, ele declarou estar "decepcionado com várias questões", incluindo a ausência de Azmoun na lista de convocados, um atacante emblemático do 'Team Melli' que no passado se posicionou a favor dos protestos contra o regime. 

Essas queixas se tornaram comuns nas redes sociais e em programas esportivos. 

Ainda assim, as críticas não apagaram totalmente o apoio. Muitos iranianos fazem uma distinção entre a frustração com os dirigentes do futebol e os sentimentos em relação aos jogadores. 

Para eles, apoiar o 'Team Melli' continua sendo um ato de patriotismo, e não uma demonstração de apoio àqueles que administram o esporte. 

"Somos iranianos e apoiamos nossa equipe aconteça o que acontecer. Adoramos vê-los vencer", disse à AFP Roza Assari, de 36 anos, funcionária de uma empresa farmacêutica.

"Acredito que esporte não deve ser misturado com política", acrescentou. 

O debate se intensificou devido às circunstâncias incomuns que envolveram a participação do Irã na Copa do Mundo. 

A relação tensa entre Teerã e Washington impediu que muitos torcedores iranianos viajassem aos Estados Unidos para assistir aos jogos. 

Os assentos dos estádios onde o Irã joga são ocupados, em sua maioria, por espectadores neutros ou torcedores da diáspora, entre os quais predominam as visões críticas à seleção iraniana. 

No entanto, para muitos torcedores, o apoio à seleção cresceu justamente por causa das restrições. 

"Muitos dos nossos torcedores não puderam ir assistir aos jogos", disse Amir Hossein Rahimi, acrescentando que deve ser difícil jogar sem a própria torcida enquanto outras seleções contam com milhares de apoiadores. 

Outros apontaram para os desafios logísticos enfrentados pela equipe.

- Situação "desigual" -

Com sua base de treinamento em Tijuana, no México, a seleção iraniana tem sido obrigada a realizar viagens de longa distância antes e depois das partidas agendadas nos Estados Unidos. 

Dirigentes do futebol iraniano reclamaram que essa situação exige que o 'Team Melli' despenda mais esforço do que seus rivais. 

"Para este grande jogo, isso afeta a situação da equipe (...) as condições de disputa são desiguais. Essa é a política dos Estados Unidos, e não há nada que se possa fazer a respeito", disse Farhad Cheshmi. 

As discrepâncias em torno da Copa do Mundo também ficam evidentes durante o Muharram, o mês sagrado de luto observado pelos muçulmanos xiitas. 

Do lado de fora da Feira do Livro, bandeiras pretas pendiam de ruas e edifícios próximos, e o ritmo distante de tambores e cânticos religiosos podia ser ouvido ocasionalmente. Lá dentro, porém, o foco permanecia no futebol. 

Para muitos, a coexistência de cerimônias de luto e da empolgação com a Copa do Mundo reflete as complexidades da vida iraniana moderna.

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