"A Igreja reza pelos soldados. Nós, ao contrário, rezamos por uma única coisa: a paz", declarou à AFP Valentina, de 69 anos, ao sair do mosteiro de Pskovo-Pechory, perto da fronteira da Rússia com a Estônia.

Fundado há mais de 500 anos, o mosteiro atrai milhares de peregrinos todos os anos. Em seu interior, sacerdotes conduzem orações enquanto os fiéis acendem velas e acompanham os cânticos religiosos.

Para Valentina, a guerra iniciada por Moscou em fevereiro de 2022 deixou marcas profundas na sociedade russa.

"Não há coesão. A sociedade está dividida. Muitas pessoas não entendem o que está acontecendo", afirmou. Seu único consolo é "a oração".

Outra fiel, Yulia, economista de 45 anos, disse que reza para que seu filho "não seja mobilizado" e para que "a guerra termine o quanto antes".

- Orações pela vitória -

Na Rússia, a Igreja Ortodoxa mantém uma relação estreita com o Estado e continua influente, embora sua popularidade tenha diminuído.

Segundo pesquisa publicada no mês passado pela Universidade Ortodoxa São Tikhon, 65% dos russos se definem como ortodoxos, contra 78% em 2011.

As pesquisas sobre a guerra também mostram mudanças. Segundo levantamento de março do instituto independente Levada, 67% dos russos apoiam negociações com a Ucrânia, o maior índice desde o início do conflito. Já 24% defendem a continuidade da ofensiva.

Desde o início da guerra, a Igreja Ortodoxa Russa e o patriarca Cirilo pedem aos fiéis que rezem pelo presidente Vladimir Putin e pelos militares russos.

Em setembro de 2022, após o anúncio da mobilização parcial, Cirilo instituiu uma oração especial pedindo a Deus que "conceda a vitória" às forças russas.

A oração passou a ser lida todos os domingos durante a liturgia. Sacerdotes que se recusaram a recitá-la foram punidos, e alguns membros do clero contrários à guerra deixaram o país.

Nos primeiros dias da ofensiva, cerca de 300 sacerdotes assinaram uma petição pedindo o fim da guerra "fratricida". Desde então, vários deles sofreram medidas disciplinares.

Segundo Timofei Chaikin, representante do patriarcado, mais de 3.500 sacerdotes visitaram unidades militares russas para acompanhar os soldados no front e "rezar pela vitória".

- "Só nos resta rezar" -

Essa proximidade entre Igreja e Estado gera desconforto entre parte dos fiéis.

Em Moscou, Arina, psicóloga de 42 anos, afirmou que sua relação com a instituição mudou profundamente desde 2022.

"A posição da Igreja me deprime. Mas sei que há sacerdotes que denunciam essa guerra e os respeito muito", disse. Ela frequenta menos os ofícios religiosos e admite que passou a olhar os sacerdotes de forma diferente.

Galina, professora de 49 anos, também relata dúvidas diante do apoio do patriarcado à ofensiva na Ucrânia. Ela chegou a considerar mudar de religião.

Nos jardins do mosteiro de Pskovo-Pechory, Andrei, de 49 anos, veterano da guerra, caminha apoiado em uma bengala. Ferido no ano passado, passou meses hospitalizado.

"Meus companheiros me escrevem da frente de batalha. Dois deles não voltaram", contou. Como outros fiéis, espera que o conflito termine logo para que os soldados retornem para casa.

"Só nos resta rezar", afirmou.

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