A agência de notícias AFP pediu explicações nesta sexta-feira (5) ao embaixador de Israel na França depois que ele admitiu publicamente que seu país esteve por trás de um ataque contra jornalistas no Líbano há mais de dois anos.
"A AFP busca respostas precisas e fundamentadas sobre o que o senhor mesmo descreveu como um 'erro'", afirmou o diretor de informação da AFP, Phil Chetwynd, em uma carta enviada nesta sexta-feira ao embaixador de Israel na França, Joshua Zarka.
Em 13 de outubro de 2023, um bombardeio no sul do Líbano, próximo à fronteira com Israel, matou o cinegrafista da Reuters, Issam Abdallah, e feriu outros seis repórteres, entre eles dois da AFP, Dylan Collins e Christina Assi, que teve a perna direita amputada.
Israel nunca reconheceu formalmente sua responsabilidade pelo incidente e afirmou à AFP em diversas ocasiões que o caso continuava sob análise.
No entanto, no programa Complément d'enquête, exibido na noite de quinta-feira pela France Télévisions, Zarka reconheceu que o Exército israelense cometeu um "erro" ao atacar os jornalistas, que, segundo ele, "não foram alvo por serem jornalistas", mas porque "os soldados em campo pensaram que eram terroristas".
"Em nossa opinião, essas declarações constituem o primeiro reconhecimento público por parte de um representante oficial israelense de que os dois disparos que atingiram um grupo claramente identificado de jornalistas foram realizados por forças israelenses", escreveu Chetwynd.
Uma investigação independente realizada pela AFP concluiu que dois disparos de obuses de tanques israelenses partiram da área de Jordeij, na fronteira norte de Israel, muito próxima do limite com o Líbano.
Essas conclusões foram corroboradas por outras investigações internacionais realizadas pela Reuters, pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas, pela Human Rights Watch, pela Anistia Internacional e pela Repórteres sem Fronteiras.
"Por que a posição que o senhor apresentou publicamente nunca foi comunicada diretamente à AFP em resposta às suas solicitações formais?", questionou o diretor de informação da agência em sua carta.
Chetwynd também perguntou ao embaixador "quais medidas Israel pretende adotar para garantir justiça e oferecer reparação aos jornalistas afetados pelos ataques".
A diretora regional do CPJ, Sara Qudah, classificou o ataque como um aparente crime de guerra e afirmou que a entrevista do embaixador não respondeu à questão central de por que jornalistas claramente identificados foram atacados repetidamente.
"As autoridades israelenses devem divulgar todas as provas que sustentem sua alegação de que os soldados israelenses identificaram erroneamente os jornalistas", afirmou Qudah em um comunicado.
ONGs e veículos de comunicação acusam regularmente Israel de atacar deliberadamente jornalistas.
O CPJ documentou no ano passado a morte de 129 profissionais da mídia em todo o mundo, dos quais 86 teriam sido mortos em incidentes atribuídos a Israel. Segundo a organização, ninguém foi responsabilizado por nenhuma dessas mortes.
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