O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou duramente nesta sexta-feira (29) os Estados Unidos por designarem como organizações terroristas as duas maiores facções criminosas do Brasil e advertiu contra "brincar com a soberania" do país.
"Nós não aceitamos ser tratados como moleques. Nós não aceitamos ser tratados como se fosse uma republiqueta", disse o petista em um evento oficial em Sergipe, visivelmente irritado.
"Não brinquem com a soberania desse país. Não brinquem com a nossa democracia", acrescentou.
Apesar da oposição do governo Lula, o governo americano designou na quinta-feira como organizações terroristas os grupos criminosos Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
Os dois surgiram em prisões e se expandiram por todo o país e para além de suas fronteiras.
Hoje, são as facções mais poderosas do crime organizado e do tráfico de drogas e controlam amplas áreas urbanas, incluindo algumas favelas do Rio de Janeiro, no caso do CV.
- "Trump quer um Osama Bin Laden" -
"Eles são terroristas para as comunidades brasileiras, para a sociedade brasileira, para o povo da periferia desse país", disse Lula, mas "não são os terroristas que (o presidente americano Donald) Trump está procurando. Trump quer um Osama Bin Laden".
O presidente acrescentou que a luta contra essas facções deve ser conduzida de dentro do Brasil.
A insegurança é a maior preocupação dos brasileiros.
Lula, que buscará a reeleição nas eleições de outubro, já havia reiterado sua oposição a essa medida durante sua visita a Trump neste mês na Casa Branca.
Ele disse que passou "três horas" com Trump e que compartilhou com o republicano documentos específicos sobre o combate ao crime organizado.
O delegado Luciano Flores, da diretoria de Cooperação Internacional da Polícia Federal, disse à AFP que o PCC e o CV "não se enquadram na lei que tipifica as organizações terroristas".
Em vez disso, são qualificadas como "organizações criminosas com atuação internacional".
Estados Unidos e Brasil assinaram um acordo em abril para estreitar a colaboração no combate ao tráfico de armas e drogas.
O vice-presidente Geraldo Alckmin disse nesta sexta-feira que a medida tomada por Washington "pode ter consequências na área do sistema financeiro, da economia" e "não vai resolver nada em termos de combate ao crime".
A decisão dos Estados Unidos ocorreu dois dias depois de Trump receber em caráter privado o principal adversário de Lula nas eleições, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O senador afirmou ter pedido a Trump, aliado de seu pai, que adotasse essa medida.
Em um vídeo publicado no Instagram após a decisão americana, Flávio disse que, com essa viagem, fez "mais pelo Brasil e pela segurança dos brasileiros" do que Lula em seus três mandatos não consecutivos.
Lula criticou Flávio Bolsonaro por não ter "vergonha na cara de trair a nossa pátria e ir aos Estados Unidos pedindo intervenção americana no Brasil".
As últimas pesquisas mostram Lula ligeiramente à frente de Bolsonaro.
Com a chegada de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, os Estados Unidos começaram a designar como terroristas organizações criminosas como os cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nueva Generación, ou o Tren de Aragua venezuelano.
Essa designação permite, na visão de Washington, ampliar todo tipo de operação — policial, de inteligência e de contrainsurgência — contra os líderes dessas organizações e seus interesses em todo o mundo.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
app-rsr/mar/am