Os Enhancede Games (Jogos Melhorados) tocaram numa ferida sensível no mundo dos esportes. Esta polêmica competição, que começa neste domingo (24) em Las Vegas e permite que velocistas, nadadores e levantadores de peso usem substâncias para melhorar o desempenho, ganhou manchetes em todo o mundo.

Para o bilionário Christian Angermayer, cofundador do evento e defensor do "biohacking", a repercussão não é nenhuma surpresa.

"Ao longo da história, os seres humanos quiseram sempre superar a si mesmos", disse Angermayer em entrevista à AFP.

"O fundamento do nosso modelo ocidental, toda a mitologia grega, se baseia em semideuses, ou em seres humanos elevados, que realizam feitos que estão além das capacidades das pessoas comuns", explica ele.

"O próprio conceito de herói e sua mitologia, nos quais nossa narrativa se baseia literalmente, fundamenta-se no fato de ser um ser humano excepcional", acrescentou.

- Danos a longo prazo -

Para os críticos dos Enhanced Games, incluindo as entidades que regem o atletismo mundial e as agências antidoping, essas comparações são muito perigosas.

Os céticos temem não apenas que os atletas possam causar danos a si mesmos a longo prazo, mas também que outras pessoas, fascinadas pelo evento, comprem suplementos experimentais perigosos para "melhorar" seu desempenho sem supervisão médica.

Angermayer, que fez fortuna com criptomoedas e também promove a desregulamentação de substâncias psicodélicas, rejeita esses cenários como uma "lavagem cerebral".

Não é segredo que os Enhanced Games são uma vitrine para os medicamentos à base de testosterona e peptídeos comercializados pelos organizadores, mas Angermayer enfatiza que todas as substâncias envolvidas são aprovadas pela Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) dos Estados Unidos.

Os atletas passaram exames médicos ao longo de todo o processo de treinamento.

O único efeito colateral mencionado pelos atletas consultados pela AFP foi "alguma retenção de líquidos", como observou o nadador britânico Ben Proud, medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de Paris-2024.

- "Consequências potencialmente mortais" -

"É uma crença tão profundamente enraizada e equivocada... Essa ideia, por exemplo, de que substâncias para melhorar o desempenho são terríveis para a saúde. Não é verdade", argumenta Angermayer, cuja posição é fortemente rejeitada por muitos cientistas.

Ian Boardley, professor de ciências do esporte na Universidade de Birmingham, disse à AFP que várias dessas substâncias podem ter "consequências potencialmente mortais e que encurtam a vida", incluindo problemas cardíacos, hepáticos e renais, já que muito pouco se sabe sobre seus efeitos a longo prazo.

Em resposta a esse alerta, Angermayer argumenta que "um medicamento leva dez anos para ser aprovado, então pelo menos você sempre tem anos de dados", e afirma que o verdadeiro perigo reside nos suplementos duvidosos vendidos no mercado negro.

Esta semana, os organizadores do evento revelaram que 91% dos seus atletas usaram testosterona, 79% hormônio do crescimento humano e 29% esteroides anabolizantes.

- Melhorias para pessoas comuns -

Vários atletas disseram à AFP que tiveram melhorias físicas jamais vistas e tempos de recuperação mais rápidos durante o período de treinamento de quatro meses em Abu Dhabi.

Eles também dão praticamente como certo que recordes mundiais serão quebrados no domingo, o que não contaria oficialmente, mas recompensaria o atleta com um prêmio de US$ 1 milhão (R$ 5 milhões na cotação atual).

Embora estar nas manchetes seja útil para sua empresa, Angermayer afirma que espera que as edições futuras deixem de focar na maximização do desempenho de atletas de elite e, em vez disso, mostrem as melhorias possíveis para pessoas comuns.

Isso poderia incluir competições para pessoas com mais de 50 anos que tentam replicar os feitos de sua juventude, para jogadores de futebol ou "YouTubers arrogantes de 22 anos" tentando vencer atletas que competem de forma limpa.

"Nenhum de nós, incluindo eu, jamais vai quebrar um recorde mundial. Mas talvez você queira perder peso", diz Angermayer. "Há tantas histórias que podemos contar".

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