O jornal digital salvadorenho El Faro, crítico da gestão do presidente Nayib Bukele, seguirá denunciando a "corrupção" governamental apesar das pressões oficiais, disse à AFP o chefe de redação do veículo, Óscar Martínez.
O El Faro, cujos colaboradores trabalham no exílio, denunciou recentemente que o governo de Bukele, com poderes absolutos e amparado em um regime de exceção, congelou bens de seus sócios por uma suposta dívida de impostos.
O jornal nega ter fraudado o fisco e afirma que se trata de uma represália pela publicação de um documentário que denunciou supostos acordos entre o mandatário e membros de gangues para alcançar o poder em 2019.
"Vamos publicar mais evidências e revelações de atrocidades aberrantes do regime de Bukele", afirmou Martínez, que participa no Panamá do festival literário Centroamérica Cuenta, que termina neste sábado.
Em junho haverá "fortes revelações sobre corrupção, saque do Estado, brutalidade e violação dos direitos humanos" em níveis "que não imaginávamos que fossem possíveis", acrescentou o escritor, que apresentou no festival seu livro mais recente, "Bukele, el rey desnudo".
Bukele goza de ampla popularidade por sua ofensiva contra as violentas gangues, que levou à prisão de cerca de 92 mil pessoas sem ordem judicial e reduziu drasticamente os homicídios.
O governante rejeita ter tido acordos com o crime organizado.
Recentemente, a Associação de Jornalistas de El Salvador (Apes) denunciou que mais de 50 comunicadores deixaram o país em 2025 devido ao temor de serem detidos e por ataques de funcionários do governo, na maior onda de repórteres exilados desde o fim da guerra civil, há três décadas.
O congelamento de ativos representa "um golpe terrível na vida de alguns dos sócios do jornal (...). Enquanto continuarmos investigando e publicando sobre a ditadura salvadorenha, ela não vai parar e vai tentar nos atacar com o que puder", afirmou Martínez.
O El Faro lançou recentemente um documentário que detalha supostos "pactos criminosos" de Bukele, rompidos em 2022 para dar lugar à guerra contra as gangues.
Essa ofensiva motivou acusações contra o governo por crimes contra a humanidade por parte de organizações internacionais.
"O exílio tornou o jornal mais caro" porque é preciso "lidar com o reassentamento da redação", e o que antes implicava chegar a uma casa ou a um café para falar com uma fonte "agora implica pegar um voo e chegar a um país qualquer para se encontrar em um local neutro", comentou Martínez.
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