O ativista mexicano Raymundo Ramos estava em sua casa, perto da fronteira com os Estados Unidos, quando o seu celular começou a tocar sem parar. Eram amigos, familiares e apoiadores preocupados com a notícia de que Washington o havia sancionado por supostos vínculos com o narcotráfico, o que ele nega.
Ramos denuncia há décadas execuções cometidas por militares e policiais por meio de sua organização, a Comissão de Direitos Humanos de Nuevo Laredo, localizada nesta cidade fronteiriça.
O Departamento do Tesouro americano o sancionou em 16 de abril junto com outras duas pessoas, acusadas de colaborar com o violento Cartel do Nordeste (CDN), que atua nessa região do México.
"Ele lidera a campanha de desinformação de tal cartel contra as autoridades mexicanas, enquanto se faz passar por um suposto ativista de 'direitos humanos'", afirmou um comunicado.
"Lamento dizer-lhes que tenho 30 anos como defensor de direitos humanos", responde Ramos em entrevista à AFP. "Tentaram me criminalizar", mas "não conseguiram".
Esta é a primeira vez que os Estados Unidos sancionam um ativista de direitos humanos.
O governo mexicano não se pronunciou sobre as sanções. A Marinha, o Exército e a Procuradoria-Geral não responderam a pedidos de comentário sobre o assunto.
- "Pedido de desculpas" -
O Tesouro afirma que Ramos "defende exclusivamente membros violentos do cartel com denúncias falsas contra as Forças Armadas mexicanas". "Ele paga pessoas para que compareçam a protestos e protege a reputação de membros do cartel mortos ou detidos", acrescenta.
Em 2023, o ativista organizou manifestações de familiares de cinco homens mortos por soldados enquanto voltavam de carro de uma festa. Quatro militares foram condenados a mais de 40 anos de prisão pelos homicídios.
O primeiro grande escândalo ocorreu em 2018, quando fuzileiros navais treinados pelos Estados Unidos desapareceram com pelo menos 27 pessoas em Nuevo Laredo, segundo a Comissão Nacional de Direitos Humanos do México.
A Marinha acabou obrigada a apresentar o seu primeiro "pedido público de desculpas" na história.
Ramos também apoiou famílias de outros cinco homens mortos. Eles estavam armados quando foram detidos pelos soldados, mas, segundo a comissão, foram desarmados pelos militares antes de serem executados.
A ação foi registrada por câmeras de segurança. Sete soldados vão a julgamento por essas mortes em agosto.
- "Preocupante" -
Pesquisadores determinaram que o Exército mexicano espionava Ramos desde 2020 por meio do software especializado Pegasus.
Naquele ano, circulou em contas anônimas nas redes sociais uma suposta conversa entre um comandante do CDN e Ramos, que afirmou que o objetivo era desacreditá-lo.
Fontes consultadas pela AFP concordam que é difícil verificar se as acusações contra o ativista são verdadeiras, mas ressaltam que as sanções americanas estabelecem um precedente perigoso.
"É realmente preocupante, não tem a ver com justiça. É justiça seletiva", alerta Guadalupe Correa Cabrera, acadêmica especialista em violência de cartéis.
"Não é a primeira vez que Raymundo é acusado de ter vínculos com cartéis de drogas", afirma Madeleine Penman, ex-pesquisadora da Anistia Internacional e da ONU, ao recordar acusações semelhantes feitas no México.
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