Um ultraconservador e um esquerdista radical disputam voto a voto uma vaga no segundo turno no Peru, em meio a novos atrasos na apuração nesta quinta-feira (16) devido à contestação de milhares de atas da primeira rodada eleitoral.

Com 93% das atas contabilizadas, o ex-prefeito de Lima Rafael López Aliaga disputa a vaga com o esquerdista Roberto Sánchez, que tem menos de 7.000 votos de vantagem, ambos com 11,9% das preferências.

Keiko Fujimori, filha do ex-presidente autocrata Alberto Fujimori (1990-2000), venceu o primeiro turno com 17% dos votos.

A contagem avança muito lentamente porque cerca de 5.400 atas foram contestadas. Os tribunais eleitorais terão que revisá-las antes de incorporá-las ao total.

"Estamos falando de mais de um milhão de votos" em jogo, que "representa quase 6% do total", disse à AFP Álvaro Henzler, presidente da ONG Transparencia.

Segundo Fernando Tuesta, ex-chefe da Oficina Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), os resultados finais podem demorar até o fim de abril para serem conhecidos.

"A definição ainda segue aberta" para saber quem será o adversário de Fujimori no segundo turno de 7 de junho, afirmou.

As eleições presidenciais de domingo, com um recorde de 35 candidatos, foram marcadas por problemas na distribuição de urnas e cédulas, o que atrasou a abertura da votação em vários centros eleitorais em Lima.

Em uma eleição agitada, na qual policiais e promotores intervieram nas instalações da ONPE, organizadora do pleito, cerca de 50 mil eleitores ficaram sem votar e as autoridades tiveram que estender o prazo até segunda-feira.

O caos logístico é apenas um reflexo de uma profunda crise política. Embora seja uma das economias mais estáveis da região, o Peru teve oito presidentes na última década, metade deles destituídos pelo Congresso.

Além disso, desde 2018, o país enfrenta uma escalada do crime: os homicídios dobraram e as extorsões aumentaram oito vezes.

- Recompensa singular -

O Júri Nacional de Eleições, a mais alta autoridade de justiça eleitoral, denunciou na segunda-feira o chefe da ONPE, Piero Corvetto, e outros três funcionários por atentado contra o direito ao voto, obstrução do processo eleitoral e omissão de funções.

O mais crítico desse processo tem sido o ultraconservador López Aliaga, admirador de Donald Trump.

Nesta quinta-feira, ele ofereceu uma recompensa de 5.800 dólares (R$ 29 mil) a funcionários eleitorais que apresentem informações "verdadeiras e comprováveis" sobre irregularidades nas eleições.

Dias antes, durante um discurso a seus apoiadores, López Aliaga deu "24 horas" às autoridades para que declarassem a "nulidade absoluta" da eleição, que ele chamou de "fraude".

O partido Juntos Pelo Peru, de Roberto Sánchez, respondeu nesta quinta-feira à reclamação de seu rival, a quem acusou de querer "distorcer o resultado".

"Se há dúvidas sobre esse processo, elas devem ser sustentadas com provas perante as autoridades, não pagando por denúncias nem criando atalhos", afirmou em um comunicado divulgado nas redes sociais, e chamou seus simpatizantes a "defender cada voto".

Uma missão de observadores da União Europeia afirmou não ter encontrado "elementos objetivos" de fraude.

Mais de 27 milhões de eleitores foram chamados a escolher o presidente e, pela primeira vez desde 1990, deputados e senadores para restabelecer um Congresso bicameral.

O atual presidente interino José María Balcázar, no poder desde fevereiro após a destituição de seu antecessor José Jerí, estava impedido de concorrer. O vencedor do próximo segundo turno assumirá o cargo em 28 de julho.

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