A América Latina e o Caribe não devem temer uma "nova ordem mundial", disse o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Albert Ramdin, em entrevista à AFP, após quase um ano no cargo e várias crises na região.
Ramdin afirmou que mantém diálogo com países que não participam dos trabalhos da OEA, como a Venezuela, e também com o principal membro do bloco, os Estados Unidos, que declararam abertamente considerar a região como sua área de influência exclusiva, sob suas próprias regras.
"Um único país não pode cuidar de tudo. Qualquer país precisa de ajuda", disse.
PERGUNTA: O senhor descreve uma situação otimista, mas na região temos ataques militares contra lanchas no Caribe, um bloqueio petrolífero a Cuba, operações agressivas contra o narcotráfico, como as do Equador com os Estados Unidos...
RESPOSTA: Ficar sentado esperando que as coisas mudem e se resolvam de outra forma não é como eu funciono. Tampouco sou dos que dizem que isto está errado ou aquilo está errado.
Temos muitos desafios em termos de democracia, de conflitos sociais específicos em nossas sociedades, de conflitos políticos, de questões eleitorais. Mas também precisamos reconhecer que percorremos um longo caminho. Viemos de uma situação em que a maioria dos nossos países vivia sob ditaduras. Esse já não é o caso.
P: A região precisava de um choque como o que está sendo o segundo mandato de Donald Trump?
R: Alguns dirão que não é benéfico, outros dirão que é imprevisível. Diplomatas como eu estão acostumados à previsibilidade. Bem, esta é uma nova política externa. A ordem mundial está mudando. E não deveríamos temer essa nova ordem mundial. Ela chegará, queiramos ou não.
P: O que acha da Doutrina Donroe do presidente Trump?
R: Não quero comentar nenhum tipo de doutrina. Conheço o termo, assim como o termo MAGA [Make America Great Again]. MAGA pode ser traduzido como algo em que os Estados Unidos também acreditam: podemos dizer que os Estados Unidos, como o país maior e mais rico, querem tornar as Américas maiores. Todos nós nos beneficiaríamos se tivermos mais prosperidade, mais comércio regional, mais investimentos.
P: O senhor acredita que a Venezuela poderia voltar à OEA como membro pleno este ano?
R: Com as condições adequadas. Eu gostaria de ver os 35 países independentes à mesa da OEA. Isso inclui Cuba, Nicarágua, Venezuela.
P: Os Estados Unidos disseram que primeiro querem estabilidade econômica, abertura e depois transição política na Venezuela. O senhor se sente confortável com isso?
R: Acompanhamos de perto a situação na Venezuela. Espero uma situação em que todos possamos estar convencidos de que a atual administração liderada pela presidente Delcy Rodríguez está tão firme e solidamente no poder que saibamos que existe estabilidade. Isso é o mais importante para nós neste momento, porque nos dará espaço para criar aberturas rumo à transição. Não estou falando de um interesse comercial; isso cabe aos países decidirem bilateralmente.
P: Os Estados Unidos são o principal contribuinte da OEA. Mas o Departamento de Estado, em sua proposta de orçamento, quer cortar recursos, escolhendo os temas da organização que está disposto a financiar.
R: Minha resposta é a seguinte: acredito que avançamos muito desde que comecei aqui em junho. No início, em nossas conversas com os Estados Unidos, havia ceticismo: "vamos cortar isto ou aquilo". Mas, no que diz respeito à OEA, isso não aconteceu. Eles pagaram tudo o que deviam de 2025, não cortaram um centavo para 2026.
Mantive conversas com o Departamento de Estado, com a Casa Branca, com o Congresso. Em todos esses lugares encontramos ceticismo. Mas eu disse a eles: deem-nos uma oportunidade.
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