O diretor-geral da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Thibaut Bruttin, advertiu sobre o "perigo" que representa para o jornalismo na América Latina o fato de vários presidentes seguirem o "manual" de Donald Trump, considerado "hostil" à imprensa.

Em entrevista à AFP durante uma visita à Guatemala iniciada na segunda-feira (13), Bruttin lamentou que a "abordagem Trump" seja um "exemplo" para presidentes como o de El Salvador, Nayib Bukele, acusado pela RSF de ataques sistemáticos contra veículos críticos.

Em um relatório regional, a RSF também aponta o presidente da Argentina, Javier Milei, por estigmatizar jornalistas.

Bruttin lamentou que jornalistas continuem sendo alvo da violência criminal e forçados ao exílio por governos autoritários, e expressou preocupação com o impacto da Inteligência Artificial (IA) na imprensa.

PERGUNTA: Como você avalia a liberdade de imprensa sob o governo de Trump?

RESPOSTA: Donald Trump é mais uma consequência dos desertos de informação do que o responsável por eles.

Ele está tentando restringir o acesso dos meios de comunicação, transformar o discurso hostil contra a imprensa em uma arma e retirar financiamento dos veículos.

Seu exemplo é algo que está inspirando outros líderes em escala global, seja intencionalmente ou simplesmente pelo fato de ter sido bem-sucedido.

P. A quem ele inspira?

R. Há mudanças políticas na América Latina com pessoas eleitas mais alinhadas com a abordagem de Trump em relação ao debate público.

Não é necessário mencionar Nayib Bukele em El Salvador, mas também é evidente que José Antonio Kast no Chile está dando um novo rumo à situação.

A ideia de que é possível ser eleito não apesar da mídia, mas porque se agride verbalmente a mídia.

Quem se alinha com Trump o faz pelos valores, mas também por um método que é hostil à imprensa. E o manual de Trump é um manual perigoso para os jornalistas.

P. O que fazer diante desse "manual"?

R. É necessário se posicionar diante de Trump.

É evidente que seu comportamento agrava seriamente a situação da imprensa e tenta fazer com que as pessoas se afastem dos meios de comunicação.

Por isso, é importante voltar a dizer às pessoas o óbvio, lembrá-las do que a imprensa livre pode oferecer em termos de valor agregado à sociedade, que fatos não são opiniões e que, sem acesso ao jornalismo, as pessoas são privadas do seu direito de saber.

P. Quais outras preocupações a RSF tem na América Latina?

R. A América Latina está sofrendo uma grande deterioração. Em algumas situações, jornalistas são assassinados, como vimos de forma massiva no México nas últimas décadas, ou com uma violência renovada no Equador, por exemplo.

Preocupa-nos a violência contra jornalistas, e nenhum país está imune a ela. Mas, às vezes, o que morre é o jornalismo, não são os jornalistas.

Mais de 200 jornalistas se exilaram da Nicarágua, e vemos jornalistas deixando Honduras. Também jornalistas da Guatemala temem ser submetidos a processos judiciais e optaram por sair para outros países.

P. Como ajudar jornalistas exilados?

R. Jornalistas não são migrantes comuns. Eles querem retomar seu trabalho o mais rápido possível.

Na Nicarágua, grande parte dos jornalistas foi para a Costa Rica. Eles precisam de um status legal para continuar trabalhando.

E é preciso abordar a questão da segurança, pois às vezes enfrentam repressão transnacional.

É uma tragédia quando jornalistas precisam ir para o exílio. Podemos ajudar com financiamento, às vezes com assistência administrativa para obtenção de vistos, e ajudá-los a se reinstalar.

P. Como a IA impacta o jornalismo?

R. Com o ChatGPT e outros modelos de linguagem de grande porte, a IA está realmente atingindo o núcleo da profissão, que é a produção de conteúdo. Há uma sensação de pânico, que é legítima.

Não acredito que a IA vá substituir o jornalismo, mas jornalistas que utilizam IA vão substituir aqueles que não a utilizam.

Por isso, consideramos necessário adotar essa nova tecnologia de forma responsável, para poder utilizá-la em benefício de uma informação confiável.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

ec/mis/mr/am

compartilhe