Uma poeta, uma locutora de rádio, uma voluntária que ajudava pessoas deslocadas, uma viúva que perdeu o marido na explosão do porto de Beirute: os bombardeios aéreos israelenses sobre o Líbano na quarta-feira (8) deixaram mais de 300 mortos.

Após realizar sua maior ofensiva aérea desde o início da guerra contra o grupo armado libanês Hezbollah em 2 de março, o Exército israelense afirmou ter atacado "aproximadamente 100 centros de comando e locais militares do Hezbollah".

Mas a maioria das pessoas mortas eram civis, disse uma fonte militar libanesa à AFP.

- A locutora de rádio -

A veterana locutora de rádio Ghada Dayekh, de 60 anos, morreu quando um bombardeio israelense destruiu sua casa na cidade costeira de Tiro.

"Conheço Ghada há 37 anos e ela sempre dizia que era nossa mentora na emissora", contou Alwan Charafeddine, proprietário da rádio Sawt Al-Farah, que em árabe significa "Voz da Alegria".

"Ela formou gerações de jornalistas e gerações cresceram com sua voz", disse Charafeddine, que também é vice-prefeito de Tiro.

Após o bombardeio israelense ao escritório da Sawt Al-Farah no início da guerra, Dayekh continuou trabalhando de casa.

"Ela se recusou a ir embora, pensando que estava segura e que não havia instalações partidárias por perto", nunca imaginou que tal agressão "teria como alvo o prédio sem aviso prévio", disse Charafeddine.

Charafeddine lembrou "sua personalidade cativante, seu espírito alegre, o sorriso que nunca deixava seu rosto e seu amor pela alegria e pela vida".

"Ela costumava se apresentar como Ghada, 'A Voz da Alegria', em vez de usar seu sobrenome".

- A poeta delicada -

No bairro de Tallet al Jayyat, em Beirute, a poeta Khatoun Salma morreu em sua casa junto com o marido na noite de quarta-feira.

A escritora e editora Rasha Al Amir lamentou a morte de Khatoun em uma publicação nas redes sociais, definindo-a como "a poeta delicada, a mãe carinhosa, a avó orgulhosa e a amiga que morreu ontem com seu marido Mohammad sob os escombros".

O diretor de teatro e dramaturgo Yehya Jaber recordou as noites que passaram com o casal em sua varanda.

"Costumávamos entrelaçar lembranças, recitar poesia, recordar nossa cidade de Tiro e amar a capital, Beirute".

Ele se despediu dizendo: "Com suas tesouras afiadas, o avião de guerra abateu uma poeta de árabe delicado".

- Um mestre torrador -

Nader Khalil começou a trabalhar na torrefação de frutos secos Rifai há 35 anos.

Ele foi trabalhar pela última vez na quarta-feira, na filial da Rifai na região de Corniche Al Mazraa, em Beirute.

Um bombardeio israelense transformou o bairro, lotado naquele horário de pico, em um cenário de ruína e devastação.

A Rifai lamentou a morte de Khalil, que era "conhecido por sua dedicação, serviço excepcional e paixão por seu trabalho", e afirmou em uma publicação nas redes sociais: "Sentiremos muito sua falta, mas seu legado permanecerá para sempre em nossos corações".

Esse sentimento se repetiu em dezenas de comentários que elogiavam o homem de "coração bondoso" e "rosto alegre".

- A viúva que exigia justiça -

Há quase seis anos, a explosão do porto de Beirute em 4 de agosto de 2020 mudou completamente a vida de Ola Al Attar, de 32 anos, e de suas duas filhas, quando seu marido, que trabalhava no porto, morreu junto com mais de 220 pessoas.

As meninas, que agora têm oito e onze anos, voltam a estar de luto pela perda da mãe, que morreu quando um bombardeio israelense atingiu o prédio onde trabalhava como secretária em uma clínica médica no bairro operário de Ouzai, ao sul de Beirute.

Ibrahim Hoteit, um ativista que representa as famílias das vítimas da explosão do porto de Beirute, disse à AFP que as meninas "ficaram agora sem mãe nem pai, depois que ambos morreram em massacres igualmente horríveis".

"Seu sonho era que chegássemos à verdade e conseguíssemos justiça" na investigação sobre o porto, disse Hoteit após comparecer ao funeral.

"Hoje nos comprometemos com ela a cumprir seu sonho".

- A voluntária -

Na região de Aley, a sudeste de Beirute, Rana Shaya foi a uma farmácia administrada por uma ONG local para buscar medicamentos destinados às pessoas deslocadas pela guerra.

Quando ela entrava na farmácia, um ataque aéreo israelense matou todos que estavam dentro.

Em sua cidade natal, Baysur, sua família recebeu condolências nesta quinta-feira, e seu cunhado Sami disse à AFP: "Desde o começo da guerra, ela havia se voluntariado para ajudar os deslocados".

Shaya deixa um marido e dois filhos. A família lembrará para sempre de Rana, decidida e cheia de vida", disse Sami.

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