O alerta mais recente vem do relatório Nuclear Weapons Ban Monitor 2026, divulgado na última quinta-feira (26) pela Norwegian People’s Aid (NPA) em parceria com a Federação de Cientistas Americanos. O documento expõe um cenário inquietante: enquanto o número total de ogivas nucleares apresenta leve redução, a capacidade real de uso dessas armas segue em expansão.

Hoje, nove países concentram armas nucleares: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte. Juntos, somavam 12.187 ogivas no início de 2026, incluindo 2.442 já aposentadas. O dado mais sensível, porém, está no que permanece ativo: 9.745 ogivas seguem disponíveis para uso militar, consolidando o fortalecimento dos arsenais.

Mais preocupante que o volume é o nível de prontidão. Cerca de 4.012 ogivas – mais de 40% do total – já estão instaladas em sistemas de lançamento, como mísseis balísticos, submarinos e bases aéreas. Na prática, parte significativa desse arsenal pode ser acionada em minutos, ampliando o risco de escalada imediata.

Em termos de poder destrutivo, o cenário é ainda mais alarmante. O arsenal global equivale a cerca de 135 mil bombas como a de Hiroshima, que matou aproximadamente 140 mil pessoas em 1945. Trata-se de uma capacidade de devastação sem precedentes – e ativa.

A expansão não é uniforme, mas constante. Países como China, Índia, Coreia do Norte, Paquistão e Rússia ampliam seus estoques, enquanto Estados Unidos e França investem na modernização. A dissuasão nuclear, longe de recuar, se fortalece.

No campo diplomático, a divisão é evidente. Embora 99 países tenham aderido ao Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, nenhuma potência nuclear faz parte do acordo. Além disso, 33 países permanecem sob o “guarda-chuva nuclear”, reforçando a lógica da ameaça como estratégia.

“Os Estados que alegam que as armas nucleares garantem a sua segurança, em particular na Europa, devem compreender que não existe nenhuma proteção sob um guarda-chuva nuclear”, afirmou Melissa Parke, diretora da Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares, em entrevista à AFP.

Ao mesmo tempo, os mecanismos de controle se enfraquecem. O fim de acordos entre grandes potências amplia a instabilidade em um cenário já marcado por conflitos na Europa, Ásia e Oriente Médio.

Mas os efeitos das armas nucleares vão além do presente. Estudos indicam que pelo menos quatro milhões de mortes prematuras por câncer e outras doenças estão associadas aos testes realizados entre 1945 e 2017 – um impacto silencioso e duradouro.

A contaminação permanece. Populações seguem expostas, ecossistemas foram alterados e os efeitos atravessam gerações. A radiação continua presente no ambiente e no corpo humano.

Diante disso, o mundo vive uma contradição: enquanto cresce o discurso pelo desarmamento, as potências ampliam seus arsenais.

O resultado é um equilíbrio instável – sustentado não pela redução do risco, mas pela permanência da ameaça. Um sistema em que a segurança depende, paradoxalmente, da capacidade de destruição. (Com AFP e Folhapress) 

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Fique por dentro

O Nuclear Weapons Ban Monitor é um relatório anual elaborado pela Norwegian People’s Aid em parceria com a Federation of American Scientists. Analisa arsenais nucleares, ogivas, prontidão, políticas de desarmamento e a adesão ao tratado que proíbe armas nucleares.

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