Uma espanhola de 25 anos que ficou paraplégica após uma tentativa de suicídio recebeu a eutanásia nesta quinta-feira (26), na cidade espanhola de Sant Pere de Ribes, após travar uma batalha legal com seu pai, informaram veículos locais.

"Vamos ver se já posso descansar, porque não aguento mais. Não aguento mais esta família, não aguento mais as dores, não aguento mais tudo o que me atormenta", declarou a jovem, em entrevista transmitida ontem pela rede Antena 3.

A Espanha é um dos poucos países que permitem que pacientes sem cura recebam ajuda para morrer e evitar "um sofrimento intolerável", desde que atendam a requisitos rigorosos.

Noelia, que ficou paraplégica em 2022, após se jogar do quinto andar, relatou uma vida sofrida, marcada pelos problemas de seus pais, que a levaram a passar parte da infância sob a tutela do Estado. Também contou que foi vítima, posteriormente, de agressões sexuais cometidas por homens.

"Ninguém na minha família é a favor da eutanásia. Eu vou, vocês ficam aqui com toda a dor, mas eu penso: e eu, toda a dor que sofri todos os anos?", questionou Noelia na entrevista, da qual sua mãe participou. A jovem ressaltou que não quer ser "exemplo para ninguém".

- Disputa judicial -

O caso teve grande repercussão na Espanha, um país com forte tradição católica, depois que o pai de Noelia iniciou uma batalha legal para impedir a morte assistida que especialistas da Comissão de Garantia e Avaliação da região da Catalunha haviam autorizado para sua filha.

Apoiado pela associação católica Advogados Cristãos, o pai argumentava que a jovem tinha problemas de saúde mental que podiam "afetar a sua capacidade de tomar uma decisão livre e consciente", e que ela havia mostrado sinais de mudança de opinião.

"Não estamos diante de uma eutanásia, estamos diante de um suicídio assistido", criticou hoje o advogado da associação.

Em audiência no ano passado - a primeira na Espanha sobre um caso de eutanásia já autorizado desde a aprovação da lei que descriminaliza esse ato, em 2021, segundo associações especializadas - a jovem ratificou seu pedido.

Todas as decisões judiciais posteriores negaram a paralisação do processo, mas o pai da jovem continuou entrando com recursos, sem sucesso.

A presidente da associação Direito de Morrer Dignamente, da Catalunha, propõe uma mudança na lei, para evitar que esse tipo de recurso se arraste indefinidamente e que terceiros possam intervir em um processo já autorizado.

A Conferência Episcopal da Espanha descreveu a eutanásia como uma "derrota social", e disse que "a resposta verdadeiramente humana perante o sofrimento não pode ser causar a morte, e sim oferecer proximidade, acompanhamento, cuidados adequados e apoio integral".

Entre os requisitos para receber a eutanásia, o solicitante deve ser "capaz e consciente" ao fazer o pedido, que deve ser autorizado por uma comissão de avaliação.

Até o fim de 2024, 1.123 pessoas haviam recebido a eutanásia na Espanha, segundo o Ministério da Saúde do país.

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