A Assembleia Geral da ONU declarou nesta quarta-feira (25) o tráfico de escravos africanos como "o crime mais grave contra a humanidade", uma causa defendida por Gana, que espera abrir caminho para a cura e possíveis reparações.

A resolução foi adotada sob aplausos com 123 votos a favor, três contra (Estados Unidos, Israel, Argentina) e 52 abstenções (entre elas o Reino Unido e os Estados-membros da União Europeia).

O texto declarou "o tráfico de africanos escravizados e a escravização coisificada e racializada de africanos como o crime mais grave contra a humanidade".

Também destacou o legado da escravidão por meio da "persistência da discriminação racial e do neocolonialismo" na sociedade atual.

Além disso, colocou em foco a escala do fenômeno, sua duração, brutalidade e natureza sistemática, bem como as consequências que ainda são visíveis na atualidade.

"Foi um crime contra a humanidade que atacou o próprio núcleo da condição humana, destruiu famílias e devastou comunidades", disse António Guterres, secretário-geral da ONU.

Acrescentou que é preciso "trabalhar pela verdade, justiça e reparação".

O presidente de Gana, John Mahama, compareceu à sede das Nações Unidas para apoiar a votação. Mahama é um dos principais defensores de medidas de reparação pela escravidão na União Africana.

"A adoção desta resolução serve como uma garantia contra o esquecimento", disse o líder africano.

- "Competição" entre tragédias -

A resolução foi além do simples reconhecimento e pediu às nações envolvidas no tráfico de escravos que se comprometessem com a justiça restaurativa.

"Os responsáveis pelo tráfico transatlântico de escravos são conhecidos: os europeus e os Estados Unidos. Esperamos que ofereçam desculpas formais à África", disse na terça-feira à AFP Samuel Okudzeto Ablakwa, ministro das Relações Exteriores de Gana.

Ele acusou alguns dos responsáveis de "se recusarem a reconhecer seus crimes".

Os Estados Unidos justificaram seu voto contrário, classificando a resolução como "altamente problemática".

O embaixador americano, Dan Negrea, explicou que seu país "não reconhece o direito legal a reparações por danos históricos que não eram ilegais sob o direito internacional na época em que ocorreram". Ele afirmou que o texto coloca crimes "em competição".

O Reino Unido e vários países da União Europeia apresentaram argumentos semelhantes. Embora tenham destacado a monstruosidade da escravidão, se abstiveram de votar.

Há um "risco de colocar em competição tragédias históricas que não há razão para comparar, exceto ao custo da memória das vítimas", afirmou o representante francês, Sylvain Fournel.

"O que dizemos é que, quando se analisam todas as atrocidades que ocorreram na história da humanidade, nenhuma foi tão sistemática e prolongada — mais de 300 anos — e com consequências persistentes", disse Okudzeto.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

abd/ube/mel/lb/am

compartilhe