Halit Krendali observa uma vala comum aberta no sul do Kosovo, na esperança de encontrar ali os restos mortais de seu tio, desaparecido há quase 30 anos. 

O homem de 70 anos acompanha peritos forenses, vestidos com trajes brancos, que examinam a terra escavada em busca de qualquer sinal das dezenas de pessoas que se presumem enterradas no local. 

"Espero nunca mais ter que voltar, porque não há fardo mais pesado", disse ele à AFP durante sua terceira visita. Por mais de uma semana, equipes exumaram restos mortais no sítio arqueológico de Perzhina, no sul do Kosovo, a mais recente de centenas de valas comuns descobertas desde o fim da guerra de 1998-1999 com a Sérvia. 

O conflito entre guerrilheiros albaneses — que buscavam a independência — e as forças sérvias deixou quase 13.000 mortos e 4.000 desaparecidos. Milhares de pessoas foram identificadas por meio de exumações e testes de DNA, mas 1.600 continuam desaparecidas. 

A maioria dos desaparecidos é de origem albanesa. Quase 500 são sérvios, ciganos e membros de outras minorias. 

Até o momento, os restos mortais de três pessoas foram exumados em Perzhina, onde a comissão governamental para pessoas desaparecidas espera encontrar até 47 corpos nos próximos dias.

- Danificados, fragmentados, queimados -

O presidente da comissão, Kujtim Gara, suspeita que dezenas de corpos de civis albaneses foram transferidos para outro local. 

"Eles foram exumados e enterrados em outro lugar pelas forças sérvias para ocultar crimes de guerra", afirma Gara. Durante a guerra, as forças sérvias removeram corpos de valas comuns para locais remotos usando maquinário pesado, o que dificulta o trabalho das equipes forenses, explica. 

Quase mil corpos foram recuperados de locais controlados pelos sérvios, incluindo mais de 740 de uma vala comum no bairro de Batajnica, em Belgrado, em 2001. 

A identificação precisa dos restos mortais encontrados pode levar anos, até décadas, e alguns podem permanecer sem identificação. 

O Instituto Médico Legal de Pristina armazena há anos caixas com os restos mortais de entre 250 e 300 pessoas recuperadas em locais da região. 

"Por que não sabemos o número exato? Porque seus ossos geralmente estão danificados, fragmentados, queimados a ponto de não ser possível obter um perfil de DNA", explica Ditor Haliti, antropólogo forense do instituto. 

Naxhije Dushi, cujo irmão Nazmi foi sequestrado durante uma operação policial sérvia em 1999, continua buscando respostas.

- Homenagens estatais -

"Preciso saber ao menos onde estão seus ossos, para que eu possa chorar e conversar com ele como fazia quando ele estava vivo", disse a mulher de 60 anos. Seu irmão, então com 23 anos, foi levado pelas forças sérvias junto com seu primo, Masar, de 26 anos, e nunca mais foi visto. 

Em 2024, quando escavações revelaram o corpo de Masar, ela esperava que Nazmi também fosse encontrado. Mas ele continua desaparecido. 

Os cientistas levaram cerca de dois anos para confirmar a identidade de seu primo, mas quando ele foi enterrado no mês passado ao lado de outras duas vítimas, seus caixões — cobertos com bandeiras — foram escoltados por um destacamento militar. 

O prefeito local, Zenun Elezaj, insiste que o enterro de Estado oferece um pequeno, mas importante consolo às famílias. "Também lhes dá um lugar para depositar flores", disse. 

A Sérvia nunca reconheceu a independência de sua antiga província, e as relações entre os dois países permanecem tensas. Em janeiro, ambos concordaram em criar uma comissão conjunta para acelerar a busca por pessoas desaparecidas durante a guerra. 

Gara relata que Belgrado se mostra relutante em compartilhar informações confiáveis que poderiam ajudar a localizar valas comuns. "Há uma falta de vontade por parte da Sérvia em fornecer dados de seus arquivos, especialmente os militares", enfatiza. 

Mas a Sérvia também acusa sua contraparte de demonstrar pouco interesse na busca por valas comuns contendo vítimas sérvias. E para aqueles que não sabem o paradeiro de seus entes queridos, a lentidão do processo é desgastante.

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