Em sua busca pelo verão eterno, uma espécie de ave costeira realiza todos os anos uma extenuante travessia de ida e volta entre o Ártico e a Patagônia, uma façanha que representa perigos cada vez maiores.
O maçarico-de-bico-virado ou maçarico-café (Limosa haemastica) é uma das aves migratórias mais extraordinárias, mas sua população despencou 95% nas últimas quatro décadas devido a uma combinação de mudanças ambientais.
Ela é uma das 42 espécies propostas para receber proteção internacional na COP15 da Convenção da ONU sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres, que começa nesta segunda-feira (23) no Brasil.
Criaturas icônicas como a coruja-das-neves - famosa pela franquia Harry Potter -, a hiena-malhada e o tubarão-martelo também aparecem na lista de espécies em risco de extinção que exigem medidas de conservação.
As populações de aves migratórias enfrentam “declínios rápidos e drásticos”, disse à AFP Nathan Senner, professor de ornitologia da Universidade de Massachusetts Amherst, que estuda o maçarico-de-bico-virado há 20 anos.
Os cientistas ainda desvendam mistérios sobre essa ave, capaz de voar até 11.000 quilômetros sem parar para comer, beber ou dormir.
E isso é apenas uma parte dos 30.000 quilômetros de ida e volta que percorre todos os anos desde suas áreas de reprodução no Ártico até a Patagônia, onde passa o verão austral.
- Migrações interrompidas -
Nesse “voo épico”, os maçaricos-de-bico-virado precisam de “recursos alimentares previsíveis e abundantes” em cada etapa do trajeto, ressaltou Senner. Mas essa previsibilidade está em crise.
No Ártico, o adiantamento da chegada da primavera atribuído às mudanças climáticas gerou um descompasso entre a época em que nascem os filhotes e o pico de disponibilidade dos insetos de que eles se alimentam.
Um dos enigmas que Senner busca resolver é por que os maçaricos-café começaram a migrar seis dias mais tarde do que faziam há uma década.
Algo alterou “ou os sinais que utilizam para sincronizar suas migrações, ou sua capacidade de se preparar de maneira bem-sucedida e rápida para a viagem”.
No sul do Chile, o avanço da aquicultura de salmão e ostras favorece uma maior presença humana e de infraestrutura nas zonas costeiras onde essas aves se alimentam.
E nos Estados Unidos as mudanças nas práticas agrícolas fazem com que as áreas úmidas de águas rasas, vitais para essa espécie, se tornem cada vez mais escassas.
Isso obriga as aves a dedicar mais tempo à busca de locais para descansar e se alimentar.
A maioria das espécies é capaz de “responder a um tipo específico de mudança, mas não a uma multiplicidade de mudanças simultâneas”, alertou Senner.
- Essenciais para os ecossistemas -
“A mudança climática está afetando esse calendário biológico, fazendo com que espécies que dependem desse relógio geológico para poder viver acabem sendo duramente afetadas”, disse à AFP Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama, antes da COP15.
A convenção será realizada em Campo Grande (MS), em pleno Pantanal, a maior área úmida do mundo, rica em biodiversidade. Considerada uma das reuniões mais importantes para a conservação da vida selvagem, o encontro reúne países que assumem a obrigação legal de proteger espécies em risco de extinção.
Porém, um relatório recente revelou que 49% das espécies incluídas nas listas da convenção apresentam populações em declínio, em comparação com 44% dois anos atrás.
A maioria dos animais em situação mais crítica são aves, afirmou à AFP a secretária executiva da Convenção sobre Espécies Migratórias, Amy Fraenkel.
A situação também é “particularmente alarmante” para as espécies de peixes: 97% das incluídas no tratado estão ameaçadas de extinção.
As espécies migratórias “são essenciais para a saúde dos ecossistemas”, ressaltou Fraenkel. “Elas desempenham funções-chave como polinização, controle de pragas e transporte de nutrientes”, acrescentou.
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