A advogada salvadorenha Ruth López simboliza a "decência" e a voz sem "medo" que o governo de Nayib Bukele só conseguiu silenciar com a prisão, afirmou Louis Benavides, marido da reconhecida ativista de direitos humanos, em entrevista à AFP.
López, de 48 anos e diretora da unidade anticorrupção da ONG Cristosal, foi presa de pijama, há pouco mais de 300 dias, acusada pela Procuradoria alinhada a Bukele de enriquecimento ilícito quando trabalhou no tribunal eleitoral, há quase uma década.
"Tenham decência, isto vai acabar um dia", disse aos policiais, na noite de 18 de maio de 2025, López, considerada uma "presa política" pela Cristosal e outras ONGs humanitárias internacionais.
Seu processo foi declarado secreto. A família não a vê desde 3 de julho, quando foi levada à audiência em que foi ordenada sua prisão preventiva.
Seu marido, também advogado, que esteve recentemente em Londres para receber o quinto prêmio internacional concedido a López pelo seu trabalho, falou com a AFP pouco antes de levar remédios ao centro penal de Izalco, a 60 quilômetros de San Salvador.
PERGUNTA: Em que etapa está o processo?
RESPOSTA: Na fase de investigação, de coleta de provas. Até os próprios advogados, às vezes, têm dificuldades para saber sobre os avanços do processo.
O juiz de instrução deveria decidir se as provas coletadas são suficientes para levar o caso a julgamento. É muito provável que confirmem a prisão preventiva.
Vivemos em um sistema de cabeça para baixo. Não há presunção de inocência. E é preciso provar que não é culpada. Nestas circunstâncias, é difícil articular qualquer tipo de defesa.
Ruth pediu um julgamento público (...) porque não tem nada a esconder.
P: Por que a prenderam?
R: Porque a autoridade não gosta da liberdade de expressão que ela exercia (...) Tinha uma voz muito forte e com muita credibilidade.
Tem sido uma mulher extremamente ativa em denunciar temas de corrupção, ilegalidades, arbitrariedades por parte das autoridades e violações dos direitos humanos.
Sua detenção ilegal era a única alternativa que restava ao governo para que ela parasse de fazer acusações.
A voz de Ruth é tão incômoda que é a única maneira de conseguirem calá-la.
P: Em que ajudam as medidas cautelares da Comissão Interamericana de Direitos Humanos?
R: Servem de pressão para que o Estado, de alguma forma, lhe garanta certas condições mínimas, por exemplo em relação à sua saúde.
É hipertensa e vou deixar medicamentos de forma periódica. Me pediram para comprar remédios para os triglicerídeos. Ela não tem uma alimentação balanceada.
Nos preocupa que tenha novas deficiências ou doenças e que não sejam tratadas de maneira oportuna.
P: Como você acha que ela está lidando com a prisão?
R: Ruth é muito forte. Emocionalmente, acho que ela deve estar bem; claro, levando em consideração as condições. Mas é uma mulher que busca ter um propósito e que com certeza o encontrou mesmo lá dentro.
Não permitem que levem leituras para ela, ou seja, livros, ela não pode escrever. Uma atividade que mencionaram que ela faz é pintar.
Ela gostava de pintar como hobby. Mas estamos falando de uma mulher tão ativa, que estava sempre lendo, escrevendo, dando aulas e ser obrigada a realizar apenas uma atividade não é, de modo algum, fácil.
P: Você ainda tem esperança de vê-la livre em breve?
R: Sou um homem muito religioso. Não perco a esperança em Deus. Agora, sendo realista, sim, parece realmente difícil uma libertação em breve.
O fato de que o caso seja totalmente sigiloso... é difícil ter esperança. Não perdemos, mas é difícil.
P: Como têm sido estes 300 dias para a família?
R: Muito forte, realmente (...) Temos nos sentido cada vez mais sozinhos. E não é que não existam pessoas que queiram nos apoiar ou se solidarizar, mas acho que há muito medo até mesmo de nos dizer isso.
Tentamos seguir nossa rotina, apesar do forte impacto que vivemos, da falta que Ruth faz em nossas vidas. Eu continuo trabalhando... os dois filhos dela estudando, a mãe aguentando como pode. Mas não é tão fácil continuar com a rotina.
P: O que Ruth López representa para El Salvador?
R: Ruth simboliza o que ela mesma expressou: decência.
Acho que representa resiliência, honestidade, dignidade. Coisas que perdemos com a polarização que existe na nossa sociedade.
A prisão representa a voz daqueles que tinham medo de levantá-la.
A decência implica ser humilde o suficiente para saber que se é imperfeito. Estas pessoas nem isso querem aceitar. Se acham infalíveis.
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