"Olha, amiga, seu marido foi libertado'!", diz, entusiasmada, Nohiris Suárez à esposa de Armando Fusil em uma videochamada. Ele é um dos detentos libertados no domingo (22) de uma prisão nos arredores de Caracas, três dias após a recém-promulgada lei de anistia.
O clima de celebração se mistura à preocupação. Cerca de 200 presos do Rodeo I aderiram a uma greve de fome para protestar contra o alcance da lei, que exclui muitos detentos vinculados a casos militares e policiais, não contemplados pelo novo instrumento.
A Justiça venezuelana já libertou cerca de 400 presos políticos em um primeiro processo de solturas anterior à anistia, da qual cerca de cem se beneficiaram entre sábado e domingo, segundo números preliminares.
A ONG Foro Penal contabilizava ainda mais de 600 presos políticos encarcerados.
Aprovada e promulgada na quinta-feira, a lei de anistia havia sido prometida, sob pressão dos Estados Unidos, pela presidente interina Delcy Rodríguez.
"Trinta e seis anos de carreira intocável na polícia" e "preso de graça, sem motivo" em outubro de 2024, lamentou Armando Fusil, de 55 anos, comissário da polícia de Maracaibo, capital do estado petroleiro de Zulia (oeste).
"Estou bem. Saí bem. Te amo muito, minha rainha!", diz à esposa por telefone Robin Colina, outro dos detidos libertados.
De cabeça raspada, como seus companheiros, e vestindo camiseta branca, Fusil está visivelmente emocionado. Com a voz um pouco trêmula, afirma que está "feliz, claro" por sair. "Todo mundo estava esperando a saída, estava esperando por todos os acontecimentos que estão acontecendo".
"Há muitas pessoas em greve de fome porque querem sair", acrescenta.
A alegria pelas libertações dá esperança aos familiares que acampam do lado de fora do presídio há quase dois meses. Eles estão exasperados, e a greve de fome aumenta a angústia.
"Estamos preocupados", diz Hiowanka Ávila, de 39 anos. "Estamos aqui fora, os familiares, preocupados com essa situação lá dentro".
Seu irmão, Henryberth Rivas, é um civil acusado de ter participado de um atentado com drone contra Nicolás Maduro em 2018.
- Uma nova Venezuela -
"Eles não estão recebendo atendimento médico lá. Uma greve de fome vocês sabem muito bem o que implica em deterioração da saúde, pode haver algum falecido porque há pessoas com câncer, há pessoas com patologias cardiovasculares, que também estão aderindo à greve", alerta Ávila.
Francia de Roso, de 48 anos, está especialmente preocupada. Seu marido, Camilo Roso, de 65, sofre de uma "patologia oncológica".
Condenado a cinco anos de prisão no âmbito do caso da ajuda humanitária solicitada pelo então líder opositor Juan Guaidó na fronteira com a Colômbia, ele cumpriu a pena em 8 de janeiro, mas continua atrás das grades.
"Até hoje não sabemos em que situação está sua ordem de soltura. O que ele precisa é a extinção da pena - que já cumpriu! - que chegue sua ordem de liberdade", lamenta.
Casos de pessoas que permanecem presas após cumprirem a pena são frequentes na Venezuela, segundo ONGs.
Após permanecer várias horas diante da prisão depois de sua libertação, Armando Fusil não sabe se partirá imediatamente para Maracaibo.
Sobre o que vem pela frente, ele demonstra esperança em retomar a normalidade. "Acredito que sim. É difícil, mas posso trabalhar pela reconstrução deste país, por uma nova Venezuela."
"Todo mundo vai sair, em nome de Deus", diz. A voz de Fusil se soma a dos familiares que se reúnem todas as noites para rezar com uma vela na mão.
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