Acusado de orquestrar o que talvez seja a maior fraude bancária do Brasil, o empresário Daniel Vorcaro se vangloriou, em depoimento à Polícia Federal, de ter "amigos" no poder, em um caso que deixa as autoridades cada vez mais apreensivas em um ano eleitoral.

O que começou com a liquidação por insolvência do Master, o banco de Vorcaro que deixou de pagar a centenas de milhares de investidores, derivou em uma investigação que revela conexões suspeitas com a política e a justiça.

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), um governador e outras autoridades são questionadas nesta trama que concentra as atenções da imprensa brasileira, após os passos de um banqueiro que até o presidente Lula admitiu ter recebido.

- Prisão -

De vida ostentosa, Vorcaro, operador na Faria Lima — a meca financeira de São Paulo —, oferecia investimentos mais rentáveis que seus concorrentes.

Contudo, desde 2024, o Banco Central detectou que o Master não tinha recursos para cumprir com suas obrigações.

Em novembro de 2025, a polícia prendeu Vorcaro, de 42 anos, por uma suposta manobra fraudulenta envolvendo Master e BRB, o banco estatal de Brasília.

O Banco Central determinou a liquidação do Master, que deixou cerca de R$ 40,6 bilhões em dívidas para aproximadamente 800 mil investidores.

Outras prisões de executivos se seguiram, enquanto Vorcaro passou a responder em liberdade com medidas cautelares, como o monitoramento eletrônico.

- Conexões judiciais -

Embora os clientes não tenham perdido dinheiro, já que as aplicações estavam protegidas pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), a investigação começou a apontar para possíveis vínculos com o poder, a meses das eleições gerais de outubro.

A pedido da defesa de Vorcaro, o caso foi levado para o STF. Em seguida, o ministro Dias Toffoli, relator do caso, determinou sigilo máximo e que todas as investigações passassem por suas mãos.

A imprensa brasileira revelou que Toffoli havia compartilhado um voo em um avião particular com o advogado de um executivo do Master preso no caso, para ir à final da Copa Libertadores 2025 em Lima, no Peru.

Depois veio à tona que o cunhado e braço direito de Vorcaro, também investigado, tinha adquirido em 2021 parte de um resort dos irmãos de Dias Toffoli, através de uma gestora investigada no caso Master.

Além disso, a imprensa noticiou que outro ministro do Supremo, Alexandre de Moraes, relator do caso que resultou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), se reuniu com o presidente do Banco Central para falar sobre o Master.

O escritório de advocacia da esposa de Moraes tinha um contrato milionário com o banco de Vorcaro. O ministro admitiu as reuniões, mas negou ter "tratado qualquer assunto" sobre o caso.

- 'Maior rombo econômico da história desse país' -

Em 2024, Vorcaro foi recebido fora da agenda pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Palácio do Planalto, quando já eram conhecidos os problemas de liquidez do Master.

"O que eu disse para ele [Vorcaro]: não haverá posição política pró ou contra o Banco Master. O que haverá será uma investigação técnica feita pelo Banco Central", garantiu Lula nesta quinta em entrevista ao portal UOL, e prometeu que o caso será investigado "até as últimas consequências".

"Quem estiver metido nisso vai ter que pagar o preço da irresponsabilidade de dar um rombo (...), talvez o maior rombo econômico da história desse país", acrescentou.

O Master também havia contratado em 2023, por valores milionários, serviços de consultoria jurídica do escritório de Ricardo Lewandowski, ex-ministro do STF (2006-2023) e ex-ministro da Justiça de Lula de 2024 até janeiro deste ano.

O governo argumentou que Lewandowski rescindiu seus contratos antes de assumir a pasta.

E jogou o fardo do Master no colo do bolsonarismo, ao lembrar que o cunhado de Vorcaro, pastor evangélico da Igreja Lagoinha, foi o maior doador da campanha de Jair Bolsonaro em 2022.

Em depoimento à PF, Vorcaro admitiu ter, sem citar nomes, "amigos de todos os poderes", e revelou que se reuniu com o governador de Brasília, Ibaneis Rocha (MDB), para discutir a manobra entre Master e BRB.

Enquanto a oposição apresenta sucessivos pedidos de impeachment contra Ibaneis, os pedidos para a instalação de uma CPI não prosperaram até agora no Congresso Nacional.

Para o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), "quando a gente vê o bolsonarismo, o centrão e parte do PT se movimentando para esfriar o caso, é porque sabem o impacto que ele pode ter".

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